segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Adendo

Mesmo que tudo termine um dia,
Mesmo que longe alguém diga simplesmente
Adeus,
Mesmo que o mar invada a terra,
Mesmo que todos os amores acabem,
Mesmo assim,
Direi que ainda estou vivo.
E mesmo que o sol nunca
Mais apareça,
E mesmo que a lua se transforme
Num astro morto,
Direi que ainda
Tenho forças.
Mesmo que todo o universo
Desapareça,
Mesmo assim...
Direi que vencerei o tempo.
E vencerei o tempo
Indo embora!
E mesmo assim não chorarei,
Pois só preciso...
De minhas palavras.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Vida V

Demônios são as faces mais
Humanas de todos os deuses...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Objetos inúteis

Uma faca

Um celular

Dois relógios...

Bem ao lado

O menino chora...

... de fome.

domingo, 6 de dezembro de 2009

O que de fato acontece por aí

... o homem às vezes se confunde se ama mesmo a mulher por inteira ou somente o sexo dela

mas sabe que apesar dela ser insuportável e confusa ele não consegue viver sem ela

e vive mergulhado na sua própria merda e ouve as reclamações da companheira por não saber se a ama ou somente aquela parte dela

que confusão quando sai à rua e vê tanta mulher caminhando mas ele sabe que em casa a sua está esperando de mau humor e que vai ouvir um monte de reclamações quando voltar

mas quer passar a mão entre aquelas pernas

quer sentir aquele cheiro

e vive a agüenta-la há muito tempo e não sabe se continuará para sempre com esse calvário

mas sempre volta para casa

mesmo depois do bar e de umas paqueras

e ouve a mesma ladainha

e vai dormir e se aconchega

passa as mãos nas nádegas dela e recebe um muxoxo que quer dizer nada mais que largue disso homem

e ele vira para o outro lado e põe-se a pensar o porquê de não largar aquela merda

mas não encontra resposta

e pensa na vizinha e na cunhada e na colega de trabalho

e na mulher que viu no boteco

e naquela que viu na rua e sei lá mais quantas que passaram na frente de suas retinas de macho procriador

é uma grande angústia que ele não sabe como resolver

e acaba dormindo e acorda com a esposa dizendo para ele mudar de posição que não agüenta ouvir tanto ronco

e ele se revolta e diz que não agüenta mais pagar contas

e ela diz que trabalha também e que não agüenta arrumar toda a casa e que não agüenta mais ouvir ele roncar e que não agüenta mais descer a tampa da privada

e que não agüenta mais tolerar a falta de atenção que ele não a compreende e tudo mais

ele se sente muito mau e sem sentimentos

mas sente uma grande vontade de passar a mão nos seios dela

pois os bicos podem ser vistos através da roupa de dormir

e ela percebe o olhar e se zanga

e as bundas ficam cara a cara e a noite prossegue

de manhã ninguém fala nada com ninguém e cada um vai para o trabalho que Deus lhe deu

e ele comenta com os amigos que comentam com ele que toda mulher é igual

e ela comenta com as amigas que homem não passa de um besta de bigode

e todos riem e pensam que é sempre bom falar mal de alguém

e a solteirona sente muita vontade de ter um marido

e aquele cara que não tem esposa pensa que já tá hora de arranjar uma

e seus amigos casados dizem que ele está louco

que casamento é uma bosta e coisa e tal

e todos seguem seus caminhos confusos

e todos sentem os corações baterem e a raiva brotar

outras se apaixonam pelos companheiros de outras

e outros se apaixonam pelas mulheres de outros

e trocam parceiros e cornos

e no final todo mundo tem algo de ruim a dizer sobre o outro

e os advogados acabam fazendo a festa

e ganhando uns trocados

e os psicólogos e os psiquiatras fazem cada um seu trabalho e os filhos não entendem coisa alguma

e a cidade continua seu movimento e Deus continua suas atitudes de onipotente

os padres e os pastores e os homens da lei continuam fazendo casamentos

e os homens da lei desfazendo

e papeis vão sendo preenchidos

e são divididos bens

e trocadas acusações

e cada um sente um vazio esquisito

e pensa em como se conheceram

e amaldiçoa o momento

e diz que nunca mais irá se envolver com ninguém

mas basta um olhar e começa tudo outra vez com outra ou outro

e gemidos saem das bocas

e os corpos suados contemplam o teto enquanto discutem qualquer bobagem numa cama qualquer

e as indústrias continuam a soltar fumaça nos ares

e os espermatozóides brigam entre si tentando penetrar num óvulo

e os obstetras continuam fazendo seu serviço

e as seguradoras continuam a pregar suas peças sacanas

e os funcionários públicos continuam seus afazeres burocráticos

e os bancos continuam seus afazeres cretinos

e os ônibus continuam a transportarem pessoas

ansiosas

e os aviões continuam a disputarem com os pássaros o espaço

e a sirene da hora do almoço toca

e os gatos pedem um petisco

e as crianças brincam de adultos

e os estudantes vão à faculdade aprenderem um monte de coisas

que não resolvem o problema do mundo

e a camada de ozônio está sumindo

e o calor aumentando

e o investidor coça a cabeça quando liga para a corretora

e a vovó morre

e nasce um neto

e a policia corre atrás de um ladrão que só recebe esse nome por ser um ser humano da classe baixa

e os catadores recolhem os restos descartados por aqueles que não são da classe baixa

e o bêbado bebe

e o drogado se droga

e todos os dois vêem coisas típicas de seus vícios

e a lavadeira põe a roupa para secar

e o caminhão está descarregando coisas no supermercado que depois serão compradas pelos consumidores que trabalham para ganhar o dinheiro necessário à sobrevivência

e à noite o trabalhador tenta voltar para casa pelo menos vivo

e a vida segue seu curso esquisito

e os anjos com suas bocas angélicas estão rindo de toda essa desordem.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Olhar sem propósito

Sim, sem nenhum propósito paro e fico olhando para o lugar nenhum. Não desejo descobrir nada, absolutamente; só gosto de ficar parado e contemplando o vazio. Olho o infinito, e muitas vezes confundem meu olhar — tenho a impressão que imaginam que olho para algo específico. Isso é um engano. Não preciso de motivos ou coisas para olhar, olho o nada, contemplo o vazio simplesmente porque gosto de perder-me nesse contemplar sem sentido.
Gosto de contemplar paredes e paisagens inexistentes. Com minha imaginação desenho o que desejo ver, e olho durante vários segundos minha criação alucinada.
Dentro de minha mente imagens dançam, e eu as projeto no vazio, buscando torná-las menos abstratas. Então, quando contemplo o nada, na verdade estou contemplando minha própria mente — meu próprio mundo que há muito habita uma terra onde o sentido não importa.
Confesso que fico muito tempo absorto em mim, e entendo que isso torna difícil a leitura de meu olhar. Mas não sou de outro jeito, mesmo sendo contraditório e inespecífico. Meu olhar não diz nada, e se parece dizer, é nada mais que fantasia do interlocutor. Meus olhos revelam apenas o reflexo de quem olha, e isso é a única imagem que sai de suas profundezas.
Sim, olho sem propósito, e navego num universo de sem sentido que busco nunca significar. Tenho o sentido como uma proposição inútil, pois já descobri que escondido atrás dele existe apenas o vazio da falta de propósito de todos os sentidos.

domingo, 29 de novembro de 2009

Anúncios

Parei perto de uma parede branca,
Contemplei a superfície lisa,
Olhei durante um segundo,
E ela me devolveu o olhar,
Dizendo que existe muito para
Ser escrito.
... e eu escrevi,
Algumas palavras naquela parede,
Mas veio alguém e
Pintou sobre minhas palavras
Uma única frase:
“Faça valer seu dinheiro”
Aí...
Encontrei outra parede e escrevi com letras
Garrafais:
“Faça valer sua vida”.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Inventores

Deus inventou o homem para ser inventado.
O homem inventou o céu para ter uma esperança.

A morte de Deus
É a morte do homem...

Se Deus morreu
É porque o homem já não possui a necessária consciência.

(Aquele choro que se ouve no vazio é apenas uma saudade, e não um ser que chora)

domingo, 22 de novembro de 2009

Anomalia mental

As engrenagens mentais giram secas em seus eixos esquisitos,
Sons de algo que se quebra,
Uma anomalia,
A mente se perde no tempo e no espaço da subjetividade latente...

Imagens,
Sons,
Sabores,
Cheiros,
Dor...

A anarquia mental explode,
E o mundo desaba para aquela mente.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Armas de fogo

A morte fabricada pelas mãos de pais e mães de filhos...
Para viver fabricam a morte,
E festejam o sucesso das boas vendas.
A morte rende pecúlio,
A morte rende vida.
A morte fabricada pelas mãos daqueles mata outros longe dali.
Mas pode matar os próprios pais... e filhos.
A MORTE

É produzida em massa,
Cruza o mundo e derrama sangue por toda parte.
A MORTE

É fria e implacável,
Tem cheiro de pólvora e óleo.
A MORTE

É fruto da mania do homem de inventar formas de matar a si mesmo.


Poema publicado no livro "Versos Inéditos", organizado por Ana da Cruz (Mural dos Escritores).

domingo, 15 de novembro de 2009

Nênia segunda... contra o poder

Meu olhar contempla o trono do alto reino...
Meus olhos são cegos...
Minha boca não sabe palavras.
O poder tão incomensurável, o poder que impede meus olhos de enxergarem o significado deste mistério perante meu entendimento.
Todo poder é ruim! E corro de suas garras — sou um fugitivo de minha própria ordem, um desertor... aquele que renunciou...
Meu nome está em todas as letras; em todos os dias; em todos os desejos... e em todos os clamores.
O poder persegue aquele que fugiu de sua garra terrível, e anuncia para os mundos o nome do rebelde.
Medo! O poder provoca medo, faz tiritar, provoca delírios...
Toda promessa é uma mentira!
Busco ser surdo às promessas do poder, e meu coração está dividido.
Minha alma... transcende meu coração,
e mantém uma firme posição
e proclama que todo poder é terrível.
Sim, todo poder é maligno;
Veja no horizonte as bandeiras do grande monarca,
E perceba que seu brasão é cunhado com fôrma em chamas,
E que... sua verdade, é olhar de cima aqueles que, assim como eu, não nasceu rei.
Sinta; sinta o poder que emana da voz autoritária do próprio poder,
Essa voz... essa voz que engana os ouvidos daqueles que têm uma esperança;
Daqueles que sonham com a igualdade de todos os seres.
O poder grita... o poder observa do cosmo e do cume da terra.
E eu... estou debaixo dos pés dos cavaleiros da suposta verdade... esta, que é a ferramenta de todo o poder.
... mas eis um levante!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Alguma verdade

Não almejo alcançar o sucesso por
Meio de minhas letras;
Estas são nada mais que
Uma forma de apaziguar
Minha loucura...

domingo, 8 de novembro de 2009

Industrialização

Tantas coisas lindas nesta
Vida...
E o homem resolveu cobrir tudo com fumaça.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Vazio de mim

Estou vazio
Vazio de mim
E tanto assim
Que perdido eu
Me sinto
E tão perdido
Não encontro
O sentido
E vazio de mim
Busco o que
Perdi
E nem sei
Se me perdi...
De mim
Ou se nunca
Comigo estive...
Vazio de mim
E assim
Fico contemplando
Minha própria
Imagem...
Tão distante.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

... numa noite qualquer

Não prometerei o céu,
Meu amor,
Não prometerei o paraíso,
... nem mesmo todo o meu amor.

Prometerei sim o maior prazer,
Quando sob o luar tocar com teus lábios
Meus lábios,
E deitados sobre a relva nos amarmos
... nós dois,
E nossos corações batendo juntos...

E meus segredos tu tentarás descobrir...
Quando no ápice contemplar
Meu olhar longínquo...

... mas este mistério é
somente meu...

... e tu também és...
... neste momento.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Pecado capital...

Dois homens discutem eloquentemente
As verdades ditas pela boca de um deus.
Os dois homens, entre eles, um
Livro muito antigo.

O vento vai levando um objeto.
... os dois homens discutindo os ensinamentos
De um deus...

Entre eles, surge uma nota de dinheiro...
A discussão é interrompida.

... quem esquece os ensinamentos num segundo...
Apanha espertamente a nota e a guarda num lugar muito seguro...
E o outro é invadido pela inveja,
E pergunta a um deus:
— Eu há tantas noites oro! Ele tem mais fé?!

Despedem-se.
Com a nota num lugar seguro o homem segue pensando no destino
Que dará àquele poder.
O outro homem segue pensando cobiçosamente na nota que poderia ter sido sua.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

XXIII

Amar é querer
bem uma
miragem...

domingo, 18 de outubro de 2009

Mercadores hipócritas

Em todos os cantos
ouço povos orando... (a Deus)
O problema é que Deus está
sendo vendido como nunca...
[De várias formas...
e através de diversos veículos.

domingo, 11 de outubro de 2009

Vida II

O produto do nascimento é a morte.
A vida é apenas uma sala de espera...
Onde aguardamos aflitos
o momento
de nos encontrarmos com
a escuridão.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Olhem bem...

Realmente são muito ingênuos aqueles que de longe me observam...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Movimento contínuo...

Prudentemente acompanho de longe o desenrolar do fio do que está por vir. E virá sim, mesmo que todos digam não. Virá e pegará de surpresa tudo o que vive. Viver e ver...
Ver e negar que viu; viver e ver sem querer ver mas querendo viver...
Passado que foi e presente que está e futuro que virá.
Viveu e viu; vivendo e vendo; viver e ver...
Querer não ver, mas querendo viver...
Não ver somente não vivendo...
Mas querendo viver
Inevitavelmente
Verá o fim
Do fio
Do
Que se desenrola
E que vai tecendo
Uma teia tão confusa
Que confunde a mente
Daquele que persistiu no
Viver sem querer ver
O que viria
Depois de
Cada acontecimento
Que surpreendentemente
Levou a outro
Numa cadeia
Onde cada
Termo desliza em
Direção a um
Desfecho
Desconhecido
Que terminará
Num
Ponto...
Ponto...
Final.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Sonho de consumo

Meu Deus... meu Deus! Se eu pudesse apagar todos os dinheiros poderia assistir tranquilamente o pôr-do-sol na companhia de meu amor. Além disso, não precisaria me preocupar com o dia seguinte, e nem com minha falta de vontade de entrar nos bancos... e nem com esta bobagem de ganhar a vida trocando ela por contracheques.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O fingidor

Escrevo sobre amor
Porque sou um fingidor.
Escrevo sobre dor
Porque já senti tal sabor.
Escrevo porque sinto,
E sou um fingidor porque escrevo,
E fingindo sentir o que não sinto,
E sentindo e fingindo
Que não sinto...

O poeta é um fingidor,
Assim já dizia o Pessoa...
E soa
O som de mais um verso...
Um verso fingido,
Um verso mentiroso,
E uma verdade escondida
Nas entrelinhas e nas reticências...
E finjo que
Tudo o que escrevi é verdade,
Mas a verdade não pode ser
Expressada por estes versos
Pobres e mentirosos...

E finjo que sinto,
E finjo que não sinto.
E preste atenção
Quando digo que sinto...
E que não sinto.
A fronteira entre o contraditório
E a coerência é tênue.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Amar por querer amor

Amar por querer também amor...

Apenas um olhar...
Logo uma palavra sussurrada,
E os lábios que se tocam
Docemente,
E o sabor que faz o coração disparar...

Um olhar,
E já um mundo diferente
Nasce,
E o passado sem tal

Sentimento é sentido
Cruel,
E do futuro
Espera-se a felicidade...

Amar deveras e não saber
Amar menos...
Sentir tão apertado
O coração e não saber
O que é ilusão.

E à noite contemplar
O luar,
E não mais sentir solidão,
E durante o dia

Sonhar sem dormir,
E mergulhar no reino
Do somente amar,
E nem querer saber que o mundo

Sabe que muitos já sonharam
Assim.

(E assim o ser humano vai levando sua vida mais longe...)

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Inerente condição

Interpretar a vida e não
Sucumbir perante o terrível segredo.
Nada vale tentar desvendar o mistério
Impenetrável que desafia
A tão limitada razão...

E os segundos que nos restam
Guardam o significado do
Fim que existia desde o começo...
E não controlamos o desfecho de

Nossa própria essência.
E quando sentimos que
Existe algo que desafia

A própria razão,
Tentamos explicar o impenetrável,
E nos perdemos,

E passamos o tempo inventado
Inúmeros padrões,
E deixamos de aproveitar os

Últimos segundos...
E o ciclo é consumado,
E a razão nada pôde fazer.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Passagem

Ele toca o sino da catedral do não mundo,
E os anjos que, com asas quebradas,
Em coro anunciam a era de fogo,
E os guerreiros tiritando de medo
Erguem suas espadas e gritam
O que o rei deseja ouvir...

Simplesmente cessa o som do sino,
E o grito do homem que o tocava interrompe
O coro dos anjos,
E todos saem da nave
Em busca de uma resposta,
Mas do lado de fora não existe mais lugar,
E espantados gritam muito alto,
E no mesmo instante uma voz de trovão
Ensurdece a multidão,
E uma carruagem de fogo
Traz em seu bojo
Apenas um ancião,
Que, com uma voz rouca,
Diz:
Olhem para cima e vivam dez mil anos...
Sendo consumidos pelo fogo do baixo
Mundo.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Momentos finais

Abraçando a própria vida com braços de leão,
Tenta em vão
Impedir que as sombras torne opaco
O mundo para seus olhos.

E chorando, navega
Para o passado,
E cenas lhe vêm à mente,
E sonhos escorrem por entre seus dedos.

Um momento,
Um segundo,
Um instante...

E o tempo pára.
E o sol
Que se esconde para nunca mais voltar.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O trinar dos pássaros sem asas

Lá longe, perto do horizonte,
Ouve-se o trinar de pássaros
Que não podem voar.

E vivem clamando para um Deus,
Implorando asas
Para que possam ser livres.

Mas o Deus daqueles pássaros
É um desejo,
E diz que um dia eles terão asas.

Há tantos séculos trinam,
Há tantos séculos alimentam o desejo,
Há tantos séculos não têm asas...

E a voz daquele Deus dos pássaros
Está lá,
Dizendo a eles que um dia terão asas...

E morrem,
E não têm asas...
E não podem voar para junto daquele Deus.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O observador ausente

Um ser que, longe em seu devaneio,
Observa através das frestas da ilusão
O passado que deixou...
E mesmo que uma rima o traga de volta
Ele jamais se permitirá habitar a terra
Que o feriu.

Mas esse ser mágico,
De tão singular presença,
Permanecerá no seu devaneio,
E um dia partirá para uma terra
Mais distante,
Onde as ilusões
Caminham independentemente das almas
Dos mortais.

domingo, 13 de setembro de 2009

Poema dos diversos fazeres

Alguns estão por aí viajando
Outros estão trabalhando
Muitos estão amando
Diversos estão chorando
Milhões estão orando
Milhares estão lamentando
E eu...
Voando...

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Caminhando lado a lado

Meus versos encerram segredos,
e minh’alma verte por frestas desconhecidas.

Tu que decerto compreendes como é
Transferir para o exterior o sentimento que em nós habita,

Transferir por meio de palavras às vezes doridas...
Sim, os versos do poeta são doridos,

Pois são partes de alma que vertem para o mundo exterior...
Tu que lês os versos... tu não lês versos...

Lês a alma misteriosa do poeta,
O segredo que habita seu coração.

Olha nos meus olhos e verás o mistério
Que em minh’alma existe,

Abraça-me, e sentirás o sentimento
Que em meu coração existe,

Dá-me tua mão...
E seguiremos rumo ao nosso destino.

(Agora por caminhos nunca mais solitários...)

domingo, 6 de setembro de 2009

Mentiras

Mentira!
E sei que ouço não verdades
E os olhares que tentam expressar
Compaixão são olhares de chacais famintos...
E a esperança de tempos melhores
É o ópio daquele que não tem coragem
De enfrentar a dura realidade que se
Ergue diante da humana consciência.

E o verbo não expressa ação
E a cadeia de significantes
Perdeu seus elos
E não encerra mais
Nenhum significado.

E todos os dias nascem
Carregados da essência
Do fim...
E todo o fazer
Humano
Não passa de uma preparação
Para o abismo.

sábado, 5 de setembro de 2009

XVII

Meu olhar tão
Fixo quanto uma rocha,
Teu olhar confuso...
Meu riso incontido...
E teu choro quando
Vou embora.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Mundos opostos

Ergue-se perante as chamas do inferno
E enfrenta a fúria do próprio espírito,
E ante as alternativas,
Cospe na fronte da perfeição,
E anuncia que não acredita
Nas palavras do rei.

No campo de batalha
Ele com sua espada fere
O orgulho do monarca,
E grita que jamais se entregará
À tirania.

É ferido pelos soldados
Cegos e, mergulhado em
Seu próprio sangue,
Grita mais alto que
Nunca será vencido!

Rufam os tambores,
Anunciando a queda
Do rebelde,
E o reino da ilusão
Mergulha na mais
Densa escuridão...

O reino das trevas
Se ergue,
O monarca profere
Palavras de esperança,
E a plebe mergulha
Na ignorância...

Mas de seu túmulo,
O rebelde se levanta...
Traz consigo um exército
De espíritos amaldiçoados,
E as criptas que são seus olhos

Brilham...
E sua boca anuncia o início da
Maior de todas as batalhas...
E a queda do rei
Do falso mundo.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Os olhos no espelho

Aqueles olhos,
No espelho,
Espiam meus olhos...
E neles vejo meus olhos
Mas não são meus
Estes que do espelho observam.

Sim, os olhos queimam e dizem que este sou eu,
Mas não reconheço o rosto e os olhos,
E a alma não se apresenta a mim.

Brilham; fulgurante olhar
de mistério,
Poço de verdades não ditas;
Espectro hediondo de mim mesmo.

Desvio o olhar,
E encaro a porta,
D’onde está surgindo um novo dia, trazendo novas verdades.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

I

O que perde
que desde
os primórdios
do tempo...
Nunca mais
no presente
habitará...
E no lago
suspenso sobre
a lua
o delírio
que não
tem fim...

domingo, 23 de agosto de 2009

XXIV

Meu espírito de guerreiro
não teme o destino
e sigo pela vida
do meu jeito
e muralhas
não me detêm
e a face do
mais terrível demônio
me provoca riso...
e aproveito as
sombras para descansar.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

XIV

Estende a mão...
Sente minha pele.
Toca meus dedos...
Sente o infinito.
Escuta meus sussurros...
Cai em meus braços.
Fecha os olhos...
E sonha navegando sob o luar...
Nesta noite.

IV

Um beijo parados
na esquina,
os corações batendo
juntos,
o despertar de
um sentimento,
um olhar
de amor,
e o tempo
que se esvai
sob o céu,
e o gosto de um sonho
que terminou.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Delírio final

Minha boca é uma masmorra, onde está
Encerrada minha língua,
Que é torturada por meus dentes ferozes...
Mas a palavra sai por outros meios,
É parida de formas animalescas,
[Bestiais...
E rende frutos devassos,
Que corrompem mulheres,
Que despertam desejos secretos:
Carnais
E mentais...
Mas chegará o dia; o dia
Em que minha língua e meu aparelho
Mental orgânico...

Os vermes, esses senhores da podridão,
Banquetearão
Com meu aparato humano,
Mas minha maldição cairá sobre eles,
E suas bocas cuspirão impropérios,

E todo o mundo cairá sobre eles com paus...
E a má sorte acompanhará toda a prole daqueles
Que assassinaram a palavra do poeta louco...

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Sedução I

Perdeste em meu olhar
E eu te acaricio os lábios com os meus
E tu sentes o meu cheiro e te entregas a mim...

Estende o tempo perdida em meu olhar
Vive a delícia perdida em meus braços
E mergulha no mais lindo e puro sonhar.

Decerto meu olhar nada diz
Apenas reflete um mistério
E tu procuras a ele não te entregar...

Mas do meu olhar não podes fugir
E tu muito bem sabes
Que não existe nada mais doce que este segredo.

(Apenas prová-lo...)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Uma frase perante o caos

Hoje lanço no espaço algumas palavras, e digo ao mundo o que realmente sou... e informo aos incautos que eles vêem o que desejo — quando tentam interpretar-me, recebem de volta apenas a própria imagem.
Falo o que preciso falar, e ninguém sustenta meu olhar... Minha voz dilacera corações, e meus gestos implantam nas almas a dúvida. Entenda, fui feito para não ser compreendido, e meu silêncio é meu jeito de dizer que não sou somente daqui.
Compreenda: sou diversos eus, não tenho um mundo; habito diversos mundos peculiares, contrastantes... e misteriosos. Os olhos que me observam quando passo perdem-se em confusão... Não olho para trás, o que me interessa está à frente, e obstáculos não me impedem de conseguir o que procuro.
Palavras não me ferem, atitudes hostis me provocam riso, e aprendo com os erros daqueles que procuram dominar-me.
Entenda: não se pode aprisionar quem possui muitos mundos; não é possível controlar um ser que despreza fronteiras.
Compreenda: encaro a vida como uma aventura, e me arrisco mundo afora. Tenho medo, mas minha coragem é maior — encaro sem tremer até mesmo a morte. Luto e venço! Caio e me levanto! Não me perco tão facilmente, e espero tranquilamente o pior dos horrores contemplando o sol que se esconde lá longe... E digo neste momento:
— Estou pronto... armagedom.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Vida I

A vida é uma piada inventada por
Deus...
Ele conta...
... só ele ri no final.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Naquele tempo...

Pense naquela pessoa que um dia confessou que te amava.
O que disseste?
Não importa, agora.
O momento já passou...
O sentimento nunca mais será o mesmo.

(O tempo não deixa)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A magia do poeta

(Aos poetas)

Eles riem do poeta
E o poeta com vontade ri de todos eles.
O que o poeta faz senão devolver
Ao mundo o que lhe foi dado?
Eles riem porque não compreendem
Que aquilo é um espelho...

O maior espelho do mundo!

O poeta desperta paixões,
O poeta desperta desejos,
Mas não entrega tão facilmente
Seus bens mais preciosos:
Seu coração e sua alma!

O poeta ri de todo o circo ao seu redor,
E ninguém compreende seu silêncio ou
Seu riso,
E ninguém consegue desvendar a sombra
Que habita seus olhos...

O poeta desperta sonhos,
Desejos
E paixões latentes!
Entra na mente
De toda a gente
E se instala no coração
Dos que lêem seus versos e,
Assim, nunca mais é esquecido.

O poeta está em toda parte,
O mundo inteiro é sua casa,
E está presente em todos
Os versos do mundo,
Em todas as canções,
Em todas as juras de amor,
Em todos os sorrisos,
E em todas as dores...

Todos os sentimentos são dele...
E todos os corações,
E todas as almas buscam a sua
Incansavelmente e,
Mesmo que ele morra,
Sua voz poderá ser ouvida
Eternamente nas quatro
Direções da terra...
Pois ele nem mesmo precisa estar vivo
Para dizer que é o maior de todos os magos.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Saudade da roça

Eu sou um homem do campo.
Não escondo minhas raízes!
Eu que vivi minha meninice
Perto do gado e da roça,
Que tantas vezes ajudei no roçado,
Que tantas vezes contemplei o pôr-do-sol
Encarapitado na cerca do curral...

Que tantas vezes corri sob chuva
Enquanto apartava o gado,
Que tantas vezes suspirei ao
Contemplar a lavoura bem
Formada,
Que tantas vezes senti o cheiro da relva
Orvalhada,
Que tantas vezes fui despertado pelo
Canto do galo índio,
Que tantas vezes brinquei com o cachorro
Que abandonamos quando nos mudamos para
A cidade...

Ainda sonho com aquele cão,
Um pobre vira-lata de nome Veludo!
Como o deixamos sozinho! — e ele
A vagar nos procurando em vão.

Após a escola, todos os dias
Eu brincava de caçador,
De vaqueiro,
De guerreiro.
Corria pelo mato,
Subia nas árvores,
Não tinha brinquedos:
Mas era feliz...

Mas abandonamos tudo!
Em busca de vida mais farta
Abandonamos a verdadeira vida.
Nunca mais fui tão feliz!
Nunca mais vi Veludo,
Nunca mais corri sob a chuva do mesmo jeito.

O pôr-do-sol hoje não é tão belo,
As manhãs não são mais tão incríveis...
Eu não abandono minhas raízes!
Sou um homem da roça,
Mesmo gostando das letras
E sendo um homem dedicado aos estudos!

Serei para sempre um homem do campo!
E meu espírito ainda é aventureiro,
E sempre busco a paz da roça,
E não esqueci que a felicidade era mais
Verdadeira naquele tempo...
Quando do mundo só conhecia
A simplicidade.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Devolução

Faço versos porque meus dedos têm vontade própria,
Também faço versos porque meu coração gosta de dar umas voltas,
Algumas vezes faço versos porque minha mente tenta mostrar ao mundo o que nela existe.

Mas o que o mundo tem a ver com isso?
O mundo é quem produz a matéria-prima de meus versos,
Eu apenas transformo a matéria bruta em manufaturados
Subjetivados.

sábado, 1 de agosto de 2009

Sentido horário

Vejo uma árvore
E já não sou como antes de vê-la.
Caminho assoviando pelo caminho
Que leva ao horizonte
E já não sou como antes de caminhar.

Tudo muda tanto!
Causa-me espanto
Este sempre vir a ser
E já não sou como antes d’este verso escrever.

Não tem fim nem começo
Mas cada minuto é um recomeço
E já não sou como antes... agora parece que sou o avesso.

Seguro os ponteiros do relógio,
Tento frear o tempo
Mas no mesmo momento
Percebo que o minuto se foi

E continuo no sentido horário
É como rezar um rosário
Sempre dando voltas
Mas cada instante diferente

Cada palavra soa igual
Mas estranhamente
singular
E se a gente
Tentar voltar...

Nada iremos encontrar...
O relógio nunca volta ao passado.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A diferença essencial entre ciência e arte

Outro dia alguém me perguntou:
— Anderson, por que você, como estudante de Psicologia que é, não direciona mais seus escritos para o lado da ciência? Existem muitas revistas científicas que aceitam publicações de universitários. Você escreve tanto! Poderia escrever mais sobre Psicologia; assuntos científicos diversos... sobre essas coisas.
Eu, calmamente, pensei por alguns instantes e, buscando bem no fundo de minha alma, descobri em menos de um minuto a razão de minha preferência pela escrita não científica. Respondi então:
— Amigo, não escrevo muitas coisas relacionadas à ciência pelo seguinte motivo: a arte... através dela posso expressar minha loucura, ou seja, através dela, posso dizer o que realmente quero dizer, o que realmente sinto em mim, sem me preocupar com normatizações absurdas. Já a ciência... esta me impede de expressar o que realmente quero, visto que ela me prende dentro de um cercado construído com todo tipo de normas tiranas. A ciência só nos permite sermos mais apegados ao engano, à idéia de que desvendando os mistérios da existência seremos mais felizes. Mal sabem os que somente da ciência vivem que, desvendando todos os mistérios, descobriremos que além deles existe somente a morte... e um vazio frio e sem fim.
A ciência tem seu lado belo, mas deve ser utilizada com cautela, visto que nem tudo pode ser enquadrado em padrões normatizadores que, quase sempre, matam todo tipo de criatividade e liberdade. Ser livre não é conhecer a verdadeira face de todos os mistérios, mas compreender que existem mistérios que somente estão lá, e que se forem desvendados deixarão um vazio escuro que jamais poderá ser preenchido. O ser humano precisa sempre buscar algo, mas jamais conseguirá ser plenamente feliz, pois, se conseguir esse intuito: morre, uma vez que não haverá mais nada para buscar.
Precisamos de mistérios! Precisamos de coisas sem resposta! Nossa sanidade depende disso! A arte permite ao homem divagar livremente por terras insólitas, e permite também o contato com milhares de mistérios — mistérios estes, que dizem algo; que sussurram que por detrás do explícito existe outro caminho... que leva a lugar nenhum.

sábado, 25 de julho de 2009

Ai... adeus férias ( retornando ao circo)

Uma espécie de crônica. Acho que sim, vamos ver no que vai dar... talvez, alguns dizeres estranhos e desaforados.

Hoje resolvi discorrer sobre um assunto diferente: meu desgosto por todos os dias ser obrigado a deixar minhas adoradas atividades para me enfiar em uma maldita e apertada sala e lidar com uns papéis malditos e idiotas. Hoje deixo a poesia um pouco de lado e falo como eu mesmo, ou seja: como alguém dito normal que todos os dias realiza abomináveis tarefas como as outras pessoas ditas normais também realizam. É, nem tudo é perfeito; ou melhor: nada na verdade é perfeito, é tudo imperfeito demais! Existe apenas uma miragem que nos engana, que diz que a imperfeição e a basbaquice são coisas perfeitas e que devem ser eximiamente praticadas. Tolice! Não dou mais ouvido as essas bobagens.
Chega. Vou dizer de uma vez e, caso você seja uma pessoa que não se indigna com sua rotina, é melhor não ler este texto. Tente ler uma revista de moda, ou uma de fofoca... sei lá. Bobagem no mundo é o que não falta. Meu texto também é uma bobagem; tudo é, visto que sempre tentamos impor um ponto de vista, mesmo que disfarçadamente ou sem saber. Quem dizer que não é assim, tenho comigo que essa pessoa não passa de um farsante que engana a si mesmo com suas próprias doutrinas medíocres e as de outrem. Essa é apenas minha opinião, outras pessoas têm opiniões diferentes. Respeito opiniões divergentes das minhas, e estou sempre aberto a discussões, contudo, isso não quer dizer que preciso concordar com determinados pontos de vista.

Fim de férias é sempre assim; pelo menos para mim: uma não vontade de voltar à rotina! Após as doces feriazinhas (sim, um mês após sofrer por doze. Viva a sabedoria dos antepassados!), a miserável rotina: sair de manhã, ir para o ponto de ônibus, esperar feito um idiota, descer na rodoviária, passar na padaria e comprar uns terríveis engana-fome (almoço? Não sei o que é isso há anos!), chegar ao trabalho, ligar os computadores, examinar os malditos papéis, atender telefonemas, responder perguntas tolas e hê... hê... hê. Não acabou não! Depois, às dezoito horas em ponto sair como um louco, ir para o ponto de ônibus morrendo de fome e cansaço, pegar transporte, ir para a faculdade, ficar quase dormindo enquanto o professor discute alguma coisa que quase sempre nem ouço pela simples razão de estar quase morto de cansaço. Pronto! Acabou o dia?... Às 22:40 pegar o transporte e ir para meu distante lar. Chego ao lar lá pelas 23:30, tento comer alguma coisa, mas nem sempre sinto o sabor porque fico dormindo sobre a mesa da cozinha. Acabo o jantar, vou para o banheiro tomar um banho, mas quase sempre tomo um escorregão debaixo do chuveiro porque dou umas cochiladas que são um perigo. Uf! Agora... dormir?! Isso é privilégio para poucos!... Fazer trabalhos da faculdade. Pronto! 01:30 da manhã, agora sim vou dormir!
Puts! Antes mesmo de colocar a cabeça no travesseiro parece que já é hora de levantar para começar tudo novamente. É... é... uma indescritível desgraça! Não tenho outra palavra para classificar tão pífia rotina! Palhaço imbecil e idiota! Não tenho outras palavras para classificar alguém como eu. Por que não mando toda essa rotina para o terceiro inferno? Por que sou um estúpido contemporâneo do “maravilhoso sistema” que me suga todo o sangue! Aprendi a ser idiota, e é muito difícil deixar de ser um imbecil apegado às palhaçadas aprendidas desde muito cedo, e pregadas por todas as instituições nas quais tive oportunidade de me enfiar como aprendiz de pateta — e assim somos todos nós. Entretanto, eu bem que tento mudar o quadro patológico, e já fiz alguns progressos nesse sentido.

Não é uma maravilha o mundo contemporâneo?!

Já estou com saudades das doces férias: almoço... radicais passeios de bike pelas montanhas da adorada Samonte (adoro mountain bike). Tempo para escrever minhas bobagens, para conversar decentemente com os amigos, tempo para estar com a família, tempo para dormir, tempo para viajar... tempo decente para tomar banho! Tempo até para praticar um pouco de le parkour! Resumindo: tempo para fazer o que de bom a vida oferece, ou seja, tempo para viver de verdade, não para fazer papel de jumento! É, caro cidadão, não precisa ficar com pena, afinal, sua vida também deve ser parecida; caso não seja, será um dia, a menos que você tome providências já. Não estou buscando compadecimento, eu apenas estou xingando um pouco... para me descontrair.

É... isso é que é viver! Pena que não deu tempo de fazer as coisas na quantidade desejada, pois durante as férias fiz as necessárias visitas a alguns profissionais essenciais da área da saúde, visto que durante o tempo do circo não nos deixam em paz os malditos senhores do espetáculo — nem para cuidar-mos minimamente da saúde. Por esta simples razão, passarei o restante das férias com a cara toda inchada feito uma droga de um sapo verde, inchado e esquisito! Tal fato se dá por causa de uma cirurgia que precisei fazer... é isso aí.

Cirurgia durante as férias! Pelo amor de Deus, fala sério, é demais! Que maldição sem graça! Estou rindo, mesmo sem poder (por causa dos pontos). É rir ou então chorar; no meu caso, rir dói menos que chorar.

Agora tudo se danou! Acabou o tempo. Não existe tempo para viver de verdade, somente para fingir que se está vivendo. Já estou até vendo os malditos papéis inúteis sobre minha mesa, e a tela do computador cheia de um monte de bobagens, e o telefone tocando sem parar...

Ai... ai... ai... Quero me ventar daqui! Ir lá para a terra do nunca, onde correr de jacaré é mais divertido que correr para ganhar um contracheque verde com uns números idiotas.

Congratulações aos senhores inventores do sistema!
Palhaços... !


Nota: Pode-se dizer que fui meio agressivo e inflexível, contudo, é só um texto que escrevi para me divertir somente. É óbvio que muito do que foi dito condiz com o que vivo atualmente, entretanto: é só um texto. Espero que tenha se divertido — assim como eu me diverti escrevendo.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Uma simples maneira de ser... e de estar (confissões de um universitário)

Por que debaixo do infinito corro atrás do destino que não compreendo por desconhecê-lo? E sempre caminhando rumo ao lugar nenhum; e tenho medo de marcar um encontro para amanhã ou depois porque não sei se estarei aqui para lá comparecer. E percebo todas as noites, quando me deito para dormir, que talvez eu não presencie o dia seguinte, mas, mesmo assim, digo a mim mesmo que amanhã posso me encontrar com o meu amor, ou posso conversar com um amigo ou desejar bom dia para o sol.
E quando saio pela manhã digo aos que amo que retornarei à noite, mas sempre sinto uma dúvida pairando entorno de mim, sendo que não sei o que me espera na esquina... ou no trabalho... ou no caminho que percorro até chegar ao lar novamente.
À noite, quando a caminho de casa estou, após um dia de trabalho, e após as aulas, bem junto à janela do ônibus contemplo o céu e, muito sozinho, ponho-me a pensar em como seria se eu estivesse lá em cima, observando-me de lá; eu lá e eu aqui.
E sinto que a minha volta, eles todos não compreendem meu estado de estar sozinho, a contemplar o espaço que de mim está tão distante... mas eu pelo menos sei a razão desse meu estar sozinho contemplando os astros... é meu jeito de me sentir perdido, de me sentir longe de mim para mais comigo estar, contemplando eu mesmo de um lugar distante, e imaginando-me longe daqui, a percorrer sonhando um lugar incrível, onde eu possa voar livremente sem asas: pois não as tenho.
E se alguém perceber meu olhar longínquo, logo compreenderá que não sou somente daqui, sendo que tenho um jeito de estar sozinho que me torna singular, diferente até mesmo de mim.
E estou ausente do mundo e de mim.
E se quem me observa tentar compreender meu jeito de estar sozinho, precisará viajar para um mundo de sonhos, caminhar comigo longe daqui, contemplar o infinito que segue sempre em frente, que nunca pára; que só segue sozinho eternamente.
Mas, contemplando o céu, vislumbro milhões de amores, sonho com mil aventuras, e descubro poesia, e tento escrevê-las no pequeno caderno que sempre carrego, e o balanço do ônibus atrapalha meu sagrado intuito e, quando chego ao meu recanto, ao invés de dormir ponho-me a escrever o que descobri, e vou dormir em seguida pensando no mundo que visitei, e me perco em inúmeros amores e sonhos e, quando acordo, percebo que tudo era só sonho... só imaginação de alguém que está sempre voando nos braços da liberdade que muito deseja...
Mas, quando saio novamente para o mundo da razão, tento encontrar em todos os cantos aqueles amores, aqueles sonhos...
Mas sempre me esbarro em obstáculos, pois ninguém compreende meu jeito de estar sozinho, ninguém observa como eu o céu enquanto o ônibus rasga a noite... ninguém quer como eu se perder nos próprios sonhos... ninguém quer como eu contemplar a lua enquanto sorri para o amor que está para encontrar... um dia.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Sitiados

A humanidade, com seus olhos da face,
Não enxerga o verdadeiro rosto do monstro
Que ela própria criou.

É, e cega segue sua sina delirante,
Vazia...
Desprovida de um sentido verdadeiro.

Sob os astros encobertos pela fumaça de nossas
Indústrias,
Caminhamos estupidamente rumo ao funesto destino,
Mas sem percebermos o verdadeiro sentido de nosso sofrimento.

E sentimos algo estranho...
Não estamos bem!
Mas tentamos compensar o sentimento de estranheza
Visitando ícones da desajuizada cultura capitalista.

Sim, nos tornamos hipócritas,
E mentimos para nós mesmos...

A rotina nos massacra,
Os inúteis utensílios contemporâneos
Nos escravizam.

Até um ser superior, hoje, está sendo
Vendido através dos meios de comunicação
Em massa... um falso ser,
Uma esperança que não corresponde ao supremo verdadeiro.

E a multidão, acometida de cegueira
Da alma...
Cai no embuste.
E vive procurando preencher o sentimento
De estranheza adquirindo objetos de salvação.

Hoje somos nada mais que:
Autômatos;
Propriedade do bestial sistema
Que a própria humanidade criou para
Tentar encontrar a felicidade...

Mas ainda não percebemos o engano...
E será que perceberemos antes do ocaso final chegar?...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Uma folha perdida de um diário de bordo

O que vou confessar agora não pode ser lido por ninguém senão eu mesmo. Contudo, o que o mundo pode fazer comigo ao ler esta confissão que faço para mim e somente para mim?
Não tem importância o fato de todo o mundo saber um de meus conflitos, isso pelo fato de que nada pode fazer a respeito, pois o que guardo em mim não pode ser tirado, é somente meu, e meu será até o momento de minha morte.
Quando ouvi minha própria alma tentando dialogar comigo, assustei-me. Como algo de dentro de mim tem a capacidade de falar externamente a mim mesmo?
Ouvir-me como se eu estivesse do lado de fora de mim. Ai! O maior dos horrores! Sim, ouvir os próprios tormentos gritando do lado de fora, o próprio âmago apresentando-se externamente ao seu arcabouço orgânico.
E o horror se torna maior quando eu mesmo digo a mim que, em mim, existe algo que desconheço absolutamente. Como posso dizer isso a mim mesmo? Como eu sei e não sei que em mim existe algo de mim que não conheço?
Pensei-me portador de um mal enorme, entretanto, compreendia que a voz que falava comigo era eu mesmo, e não um terceiro.
Meus ouvidos ouvem o que eu mesmo digo a mim, mas ouvem de uma forma inteiramente diferente de quando ouço minha própria voz...
Ouço um eu diferente, uma voz que não é uma voz fônica, mas uma voz que sai de um lugar distante em mim, algo totalmente desconhecido por mim até aquele momento.
E a voz disse que o que vejo nos meus olhos quando os contemplo no espelho é apenas uma pequena parte do segredo que habita os confins de mim, apenas uma minúscula parte de um mistério maior, uma ínfima partícula do ciclópico abismo que existe além das fronteiras de meu eu consciente.
Desesperei-me ao ouvir esse relato tão singular.
Porém, eu disse a mim mesmo para segurar o instinto, desconhecer o que existe dentro de mim não é algo para causar desespero, mas, antes, uma oportunidade única de mergulhar no íntimo de mim para conhecer-me melhor.
— Mas eu, isso não é o início de um grave mal
Mental?
Pode ser... ou não...
Mas não saberei se nunca tentar viajar para o mais distante de mim, galgar os picos que existem entre meu consciente e meu inconsciente; cruzar vales sombrios, mergulhar em mares de águas turvas... e chegar ao lugar onde habita meu terceiro eu: o que desconheço mais completamente.
Termino esta confissão aqui. Vou escrevendo neste pequeno diário cada dia dessa odisséia e, caso eu consiga voltar...
Torço para que o mundo me aceite de volta...
Mas não contarei o desfecho àqueles que perguntarem ao poeta como é ir e retornar do inferno.

domingo, 12 de julho de 2009

O olhar do astrônomo

Vá até onde o horizonte deságua,
Olhe para baixo,
E contemple o fim do mundo,
E sorria,
Pois a terra é uma laranja,
Que murcha muito devagar.

domingo, 5 de julho de 2009

Manifesto libertário

Quero desprender-me dos grilhões que
Aprisionam-me à realidade que abomino.
Quero contemplar o pôr-do-sol em paz,
Quero ser livre,
Quero poder ter um amor verdadeiro...
Quero ter tempo para viver.

Que vida é esta que todos os dias sou obrigado
A suportar?
Denomina-se vida esta que me obriga sempre
Deixar de viver para não morrer?
Triste ironia, sim...

Sou um rebelde; confesso finalmente! Não aceito ficar acorrentando a
Esta execrável realidade criada por nossa própria estupidez!
Viverei à revelia desta pífia verdade.
Meus gritos serão ouvidos em todas as direções apontadas
Pela rosa-dos-ventos,

E o vento levará para os lugares mais distantes
Meus clamores,
E ouvirá aquele que sente um vazio,
E se juntarão a mim aqueles
Que desejam um dia viver.

Mesmo que eu seja atacado por aqueles que me têm como
Diferente demais...

Mesmo que se levantem contra mim os exércitos
Dos senhores da verdade...
Minha boca,
Não será silenciada.

Ninguém pode calar aquele que não tem medo
do outro lado...

Ninguém pode calar aquele que desde há muito
Luta contra si mesmo...
O mais temível dos inimigos.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Anjo perdido

Pobre anjo que enquanto tentava conhecer-se
Perdeu-se em si mesmo...
O anjo, agora perdido,
Busca uma saída; um outro caminho,
Mas está encerrado em si mesmo
E não consegue se libertar de sua própria alma.
O anjo perdido tenta gritar por socorro,
Mas algo o impede,
E ele a cada momento
Se sente mais fraco e solitário.
O anjo perdido!
Que se perdeu quando tentou
Descobrir o que existia em seu coração.
O anjo perdido!
Com as asas cobre o rosto,
Com suas palavras esconde a verdade.

(E tenta descobrir o que aconteceu contemplando-se no espelho...)

segunda-feira, 29 de junho de 2009

A recompensa após um ato de coragem

Sinto-me hoje
Caminhando sobre o ponto mais
Alto da terra!
E tal sentimento é tão puro e
Bom que não posso esconder um sorriso...

Como é bom esclarecer fatos há tanto obscuros.
Sim, nada melhor que sentir a luz
Sobre o rosto,
O hálito frio do vento enquanto caminho por esses caminhos
Quiméricos.

Nada melhor que galgar obstáculos,
Descobrir verdades antes veladas e,
Ao longe, ver a liberdade chegando de
Braços abertos.

Meu sorriso se alarga,
Meu coração se embebe de alegria,
E minh’alma se descobre
Contemplando um novo caminho.

(E um novo desafio...)
29/06/2009

Desluz

Depois que todas as luzes se apagarem,
Os corpos não terão mais sombras,
O dia não terá mais aurora.
E Deus...
Estará rindo segurando uma toalha
Vermelha na frente do astro maior.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Como o poeta vê

O poeta não enxerga somente com os olhos da face.
Enxerga mais longe e profundamente com
Os olhos que existem no interior de sua alma singular.
Enxerga o mundo e o estuda.

O poeta observa o mundo ao seu redor...
Observa com os olhos fechados,
Pois o que realmente importa ver
Não pode ser visto pelos simples olhos
Da face.

Não é possível enganar um poeta no seu próprio campo (dos sentimentos).
Ele, finge-se ingênuo para descobrir
Verdades maiores e mais profundas.

O poeta é o dono de seus próprios
Sentimentos, ninguém tem o poder de roubar
O que ele carrega dentro de si.

Quem deseja o poeta,
Precisa conquistá-lo
Todos os dias...
(Ou irá perdê-lo... inevitavelmente)

Com seus olhos da alma
O poeta tudo vê,
Tudo descobre, e compreende que os amores humanos
São tão tênues e irreais
Quanto o rosto de Deus na mente dos mortais.

terça-feira, 23 de junho de 2009

A face desconhecida

Já sonhaste com um arcanjo?
O anjo cujas poderosas asas levam para além
Do cimo das montanhas o próprio ser singular.

O arcanjo, dotado de poderes ancestrais.
O arcanjo que protege tenazmente
Aquela que do seu lado se encontra.

Já percebeste o mistério e a força
Que existem nos olhos desse arcanjo?
Aninha nos braços dele e sente
A energia circulando por seu corpo

Enganadoramente frágil...
Sim, engana-se aquele
Que com os olhos da face
Julga frágil o arcanjo que nada teme.

O arcanjo nada teme,
Envolvido em mistério está,
E quem julga conhecê-lo... se engana.
Mas nos braços desse ser singular,
Encontrarás segurança.

(E o que o infinito permitir...)

sábado, 20 de junho de 2009

Meus olhos, um mistério (manifesto sobrenatural)

O que minha alma esconde,
Pode ser visto nos meus olhos por
Aquele que olhar e compreender.

Sim, meus olhos escondem o segredo
Que minh’alma encerra...

Toma cuidado com o segredo daquele
Que desde há muito lida com existências
Estranhas; habitantes misteriosos de
Um plano distante.

É, o segredo que faz gelar o sangue daquele
Que tem medo,
O segredo que provoca arrepios
No coração daqueles que temem a verdade.

Olha nos meus olhos,
Escuta o mistério,
E desvenda o segredo (se suportares).

Mas não tentes dominar-me,
Pois ninguém tem poder sobre
O ser que não teme o outro lado.

(Nem mesmo aquele que se esconde no cimo da mais alta montanha... o que pronuncia palavras de fúria rodeado por mil guerreiros imortais...)

Fascínio

Os prazeres mundanos quase nada me atraem.

Encanta-me, o que existe além do universo:

O impossível...

E o grande mago que vive escondido atrás de uma cortina de mistério.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Inventário

Quando eu exalar meu último suspiro, não quero lágrimas rolando por mim.
Pois hoje sei que toda lágrima é egoísta, e não quero ser lembrado como alguém que preenchia uma lacuna...
Mas alguém que existia mesmo não preenchendo coisa alguma.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Incendiário

A cidade arde em chamas...
Ele, de pé sobre uma muralha imensa,
Contempla com olhos insanos o inferno logo abaixo,
E, na mão direita, segura uma vela...
Agora, apagada.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Prisão

Acabei de chegar a este mundo,
E já estão mandando-me embora,

Para onde a luz não se atreve...
Iluminar.

Ávido por existência, cheguei a estas paragens,
E busquei um cantinho,

Para fazer meu ninho,
E cantar sossegado,

A beleza de minha vida,
Que mesmo que entristecida,

Ainda carrega beleza,
De singela leveza.

Mas algo aconteceu,
E não percebi,

E dormi
Sem pensar,

E acordei no ar,
Despencando para um abismo,
Onde nem anjo existe.

Agora, perdido no escuro,
Tento escalar um muro,

Que, mais alto que Deus,
Prende-me a estes versos.

Do livro “O Portal”.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O solitário

Caminhando sob o céu plúmbeo, e olhando as estrelas que morrem,
Desato-me a chorar...

Ninguém para amar,
Nem mesmo Deus... que há muito se fora.

Em desatinada andança, lancei-me,
E nada me resta além de andar,

Rumo ao mar,
Onde acredito haver vida.

Abri a boca inúmeras vezes para gritar,
Mas meu som não encontra eco.

Às vezes escuto um grasnar,
E perscruto o espaço,

Mas vejo apenas um anel solar...
Solitário.

Estou sempre a andar,
E minhas pernas estalam.

Caminho rumo ao mar,
Onde penso existir algo que viva.

À noite, desembesto-me a sonhar,
E vejo corpos — mortos,

E acordo com o coração em louco palpitar,
E choro,

Até a aurora chegar,
Com seu calor vazio.

Rumo ao mar,
Sigo sem bússola,

Em contato com ar,
Da terra morta...

[Sem ninguém para amar...
E minha existência é tão só.

Sozinho rumo a algo que viva,
Para formar comigo um par.

Preciso de algo para amar,
Algo,

Capaz de pensar...
[em uma solução.

Mas...
Ouço novamente um grasnar,

Vejo... uma nave,
Singrando o ar,

Em vôo rasante,
Que até quebra a rima um instante...

Quase imperceptível como um gemido,
De algo ferido,

Que acabou de morrer sem chegar,
Ao seu destino...

Que era o mar...
Onde esperava encontrar um amor.


Do livro "O Portal".

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Apenas João

João, que um dia correu e caiu,
Que um dia morreu e sorriu,
Que um dia amou e...
Nem ele sabe.

João, que um dia saiu de casa,
Que um dia sentiu saudade,
Que um dia...
Perdeu-se de si.

João, que nem é mais João,
Que um dia se viu no espaço,
E se perdeu do concreto...
E se viu no abstrato.

João, apenas João,
Que se levantou e seguiu adiante,
Que um dia foi para o espaço e voltou.

João,
Que um dia se desprendeu do concreto,
Mas voltou ao que é certo...
E, encontrou-se.

Do livro “O Portal”.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Astrô-nomo-nauta

Sempre que vejo a lua, sinto uma vontade de dizer:
— Meu amor, seja lá onde for, penso em ti!
Não importa quão distante esteja neste ermo, quão só esteja...
Estou aqui com uns olhos imensos, perscrutando a vastidão do cosmo,
Numa ansiedade de astrônomo, pronto para voar para ti... ao teu encontro, movido por um sonho, meu propulsor mais potente.
E vou voando pelo espaço,
Mas me perco na vastidão em meio aos astros, que me observam com uns olhos de riso...

(É minh’alma que voa, é minh’alma que está perdida)

terça-feira, 26 de maio de 2009

O trem

Um, dois, um, dois...
Segue o trem correndo pelos férreos trilhos dilatados.
E como ele corre, e como ele ruge...

Meu coração acompanha o motor da máquina férrea,
E vou levando a vida nesse embalo.

Um, dois, um, dois...
O trem está chegando ao seu destino...
Um, dois... um...
O trem está parando.

Um... dois... um...
O ritmo diminui, agora.
Um...

[...]

O trem para,
E eu...
[nunca mais voltarei.


Do livro "O Portal".

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Dias

Vislumbrei um belo dia, hoje.
Os dias não são iguais;
E eu também não.

Nem aquele que passa por mim todos os dias é igual,
Tampouco aquele cachorro que late todos os dias quando passo
Por aquele portão.

Singularidade!
Toda a vida é singular:
Nasce todos os dias;

E morre todas as noites.
O tempo continua sua caminhada misteriosa,
E encerra um segredo que arde em nossos corações.

Quantos dias existem, ainda, para mim?
Posso marcar um encontro,
Mas não sei se estarei presente.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

O desaparecimento do arcanjo

Vês, ninguém encontrou a trombeta do arcanjo,
Ninguém nem mesmo encontrou o arcanjo.
Só encontraram algumas penas, e um pedaço
De céu...

Feito de papel,
Papelito barato,
Cinza, amassado.

Agora a lua está murchando,
E o vento parou de sibilar,
E os olhares das mulheres perderam o encanto.

— Meu Deus! Onde está o maldito arcanjo? — Perguntam todos desesperados.
— O infeliz faz falta!
[E a terra está a ponto de girar ao contrário.

É uma loucura! Todas as vacas estão miando,
E os gatos uivam como lobos,
E os lobos batem asas como borboletas.

Os homens, coitados, estão todos
Debaixo de pedras,
Escondidos dos sapos,

Que, com línguas pegajosas,
Querem devorá-los
A todo custo.

Aqui de onde estou, vejo toda a confusão
Terrena, e não quero voltar ao trabalho.
Ser anjo, não é coisa fácil nestes tempos.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O canto dos anjos

O canto dos anjos verdes que habitam a escuridão fúnebre que gela o coração dos homens que passam pelo Vale da Vigésima Terceira Hora,
Ora,
É um canto que sai de bocas imortais,
Que anuncia a verdade bruta que o homem tenta esconder,
E ouvi-lo provoca medo,
E com o dedo
O homem entope os ouvidos,
Mas seu coração ouve o canto,
E cheio de espanto
O homem segue,
Corre,
Foge,
E grita.
O canto o persegue,
Percorre ondeando pelo ar em busca de um ouvido...
Precisa ser escutado,
Precisa de um ouvido,
Precisa de uma mente que processe a terrível mensagem,
Precisa de um coração que sinta frio e aperto...
Pare!
O homem grita!
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO...
O canto canta,
As bocas matracam frenéticas,
O homem cobre com as mãos as orelhas,
Mas sua pele continua ouvindo o canto que sai das bocas dos anjos
Verdes que habitam a escuridão do Vale da Vigésima Terceira Hora,
E,
Agora,
O canto se espalha,
Cruza as fronteiras do Vale e assombra outros campos.
O canto amplificado amplifica o desespero desenfreado do homem
Que foge das vozes que cantam sua verdade.
O CANTO DOS ANJOS!
O homem se dobra e vomita uma palavra:
PIEDADE!
O canto resvala nos ouvidos,
Brita o coração,
Ecoa na mente.
A lua se esconde das vozes e da verdade que elas proclamam.
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO...
Um canto bruto e frenético,
As vozes trovejantes dos anjos verdes sobre o entendimento do homem
Que correu quando ouviu uma ponta de sentido.
Os sons noturnos são interrompidos,
Os cricrilares param,
O coaxar difuso cessa,
O sereno interrompe seu despencar noturno.
TUDO PÁRA!.
O som das vozes dos anjos cruza veloz a noite,
Atravessa rios e salta por sobre as montanhas,
Entra nos ouvidos de animais e de árvores adormecidas,
Fura ondas de rádio,
Interrompe sinais estranhos
E mergulha dentro de todos os outros sons,
Funde-se a todas as notas,
Incorpora-se a todas as palavras,
E ganha um significado grande,
E só espera ser ouvido para dizer uma verdade que é dita todas as noites
Pelas bocas dos anjos verdes do Vale da Vigésima Terceira Hora.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Pequeno discurso acerca do amor

Decerto, o sentimento abrasador que move o coração humano arde de uma forma diferente em meu ser.
Sim, pois o que entendo por amor não é um sentimento que tem por função preencher uma lacuna não preenchida por um sentido.

Preencher uma lacuna... não o amor que entendo. O amor tem por função demonstrar que o outro possui um coração e um sentido diferente desse meu sentido,
E que os dois corações precisam um do outro de uma forma desprovida de egoísmo...

De certa forma, posso captar no olhar dela o sentido de seu amor, e em suas palavras a vontade que arde loucamente em seu jovem coração.
Mas, decerto, o sentido que ela busca tem para sua alma uma significância não completamente compreendida; existe para todos um hiato entre o desejo brutal e a verdadeira essência do sentido subjetivo.

Mas é claro que essa de quem falo tem seu próprio método de interpretação de si, e não cabe a mim interpretá-la de meu modo.
Porém, o que vejo naqueles olhos desperta em mim uma ponta de sentido; sentido este, significante para mim.
Mas, de qualquer forma, gosto de olhar naqueles olhos,
E só não os tenho, porque ainda não mostrei o que existe além de meus olhos e de minhas palavras.

Mas hoje de manhã contemplei o horizonte... e não vi nada além de meus olhos voltados para o sentido que, hoje mesmo, habita minha dúvida.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

O mugido

Naquela terra vazia jazia uma vaca... viva.
Uma vaca de pouca sorte: último ser vivo da esfera.
De tanto mugir desfalecera,
E passou a olhar o céu cinzento com olhos chochos,
E resolveu um dia declarar-se morta.

Mas por ter pouca sorte, não adiantou muito declarar-se morta.
A vida persistia como uma peste.
E a vaca mugia de desespero, um mugido por demais infeliz e fraco.

Os mugidos correram pelo ar poeirento,
Atravessaram desertos e abismos imensos.
E nada...

Crepúsculos depois, a vaca desistiu:
Calou-se de vez.
Mas a morte correu para mais longe da pobre infeliz.

Mas o tempo passou, e a morte foi obrigada a buscar a vaca.
Enfim, lá se foi ela, toda sorridente e magra.

Na terra despovoada, o vento varria as planícies e os montes.
Com exceção do uivo triste do vento, nenhum som existia na esfera.
Porém, algo aconteceu.

O mugido da vaca voltou, agora, um mugido viçoso,
Cheio de encanto e autoridade.
Fato estranho, não existia mais vaca.

Mas o mugido estava lá: mugindo.
O próprio silêncio resolveu averiguar aquele misterioso acontecimento,
E correu a terra em busca da fonte de tão curioso barulho.

Não encontrou coisa alguma,
Mas, num ponto longínquo,
Uma sombra riu baixinho...

(Quebrando o silêncio com outro som)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Espelho

Manhã, corpos andando ao sol. Um frio!
Da janela vejo uma mulher, já não jovem.
Será que ela já viu o espelho hoje?
Quanto o tempo lhe roubou!

Ela anda pesadamente pela calçada, arrastando os ossos
Sob o sol auroreal.
E a alma? Envelheceu também?
Tenho a impressão de que se eu olhasse bem no fundo
Dos olhos dela descobriria a resposta, ou não.

Nem sei se ela sabe que envelheceu...
Às vezes eu mesmo nego o que é refletido pelo espelho,
E procuro o outro que vive atrás dele...

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O homem cego

A luz negou sua benção àquele homem de olhos de prata.
E ele vive mergulhado numa densa escuridão tenebrosa,
E do mundo não conhece as cores,
E das mulheres nunca viu as faces.

E com seu cajado de moribundo
Segue seguro pelos caminhos,
E sorri aos transeuntes,
E recita versos de esperança.

Ah, e ele enxerga algo que o outro não enxerga.
Contempla a dor que vive nos corações,
E a tristeza que habita as almas...

Sua curiosa visão enxerga mais que os olhos,
E de dentro de sua caverna escura ele compreende uma estranha verdade:
O pior tormento humano não pode ser recebido pelas retinas.

sábado, 28 de março de 2009

Caos pós-moderno

Nada ali, nem nada aqui...
Prende-me ao significado que o mundo diz. Mas o que o mundo entende de
Verdade? Entendo o significado que dou ao mundo, mas não entendo o significado
Que o mundo dá à vida...
Perco-me em túneis de imperativos cuspidos por bocas cibernéticas, e enlouqueço
Sob as luzes de néon...
E caio sobre a terra devastada pelo furor de mentes que consomem... o mundo que Morre...

Juntamente com a vida existente nele.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Soneto da escada

Os olhos azuis das paredes estão todos
Confabulando, trocando fofocas,
Falando mal da escada que, suspensa,
Desafia arrogante a gravidade.

Pés sobem, pés descem,
Toc... toc... toc...
Sempre num barulhinho compulsivo de dar dó.
E esses olhos nas paredes observando tudo com ciúmes?

Ninguém sobe em paredes, apenas os feios calangos.
Os olhos azuis querem um contato mais agressivo,
Querem ir ao topo, para perto do céu.

Mal sabem eles, que a escada chora cada vez
Que houve um toc... toc... de um salto de sapato,
E ela amaldiçoa sua sorte de escada inerte... que leva ao céu.

sábado, 14 de março de 2009

Cricrilar onírico

Um grilo cricrila solitário na parede de um sonho...
E o sonhador tenta apanhá-lo com uma mão abstrata,
Mas esbarra na barreira da razão
Que diz não...

Um sonho é só um sonho, e o grilo é só um produto onírico — cospe a razão.
Mas o cricrilar ininterrupto cutuca a paciência do sonhador,
E, este, tateia a vastidão de sua mente sonolenta em busca de tão
Terrível incômodo.

Novamente a razão diz
Não!
Mas o sonhador nada mais quer saber,
Nada mais quer pensar...

Quer encontrar
O grilo,
Que cricrila a verdade não racional que só existe nos sonhos.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Nênia primeira... contra o poder

Todo criador é mau. E sendo mau, todas as suas ações são terríveis.
Porém, eu perante ele nada posso dizer, pois minha palavra é muda diante daquele que criou o incomensurável espaço.
O céu, que se ergue ante os olhos dos homens, encerra um segredo terrível, e nosso olhar não alcança o que de fato existe no cimo desse firmamento.
E o homem, mergulhado em sua ilusão de conhecimento, busca interpretar os sinais, e sua vida se transforma numa busca dolorosa e sem sentido... pois o segredo está além do nosso olhar, está entre os dedos do engenheiro dos universos.
Todo servo do criador é terrível. E suas imagens são profanas, e alimentam um desprezo pelos mortais, e correm os mundos atormentando em segredo as almas dos habitantes além das diversas fronteiras...
Sim, mas se eu gritar o que de fato é... encerrarão minha língua numa redoma ornada com espinhos, e meu sangue banhará as terras dos quatro cantos dos inúmeros mundos, e serei um aviso... de que a desobediência tem um preço.
Do cume do mais alto firmamento, as almas observam lacrimosas os clamores ingênuos daqueles que olham para um lugar em busca de paz...
Os que já partiram, eles sabem... que todo criador é terrível. Que naquele reino a dignidade não existe, os joelhos se mantém em constante atrito com o solo, e que a dádiva... é amarga.
Um rei! Todo rei é terrível, ornado com a mais pura prepotência... exige o sangue de seus súditos, e os que já partiram sabem que não existe dignidade... súdito é um eufemismo que esconde escravidão.
Todo Senhor é cruel. E minha fúria contra sua força é inútil, pois ele inventou minha ordem, e, eu... sou pequeno, e meu olhar não atinge o soberbo poder.
E quando contemplo o horizonte vejo uma luz zombando de mim; o sol que se esconde zombando de minha mísera condição.
Toda compreensão é terrível. Tentar compreender o significado do que diz o mistério amplo que reside em todo o espaço...
O começo do vazio, a frustração que engolirá a alma daquele que com uma simples mente mortal busca compreender aquele que nos criou para não compreendê-lo.
Quando busco compreender ouço um sussurro que diz que o mistério foi feito para não ser apreendido; compreender... levaria a consciência à morte, tão terrível é o mistério que encerra o limiar entre o mortal e o que viverá sempre.
Aquele que se revolta... sofrerá as conseqüências de sua audácia, pois todo criador é mau; todo rei é terrível; todo Senhor é cruel — e o oposto a ele também...
E a morte... é apenas o caminho para um outro mundo tão absurdo quanto este.

terça-feira, 3 de março de 2009

Clamor ao mundo

O meu clamor ultrapassa o cimo do mundo,
e em espaços estelares os povos se espantam com meu desejo.
Mas não!
Não se pode negar que se sente um sentimento fumegante,
e encerrá-lo no coração dói, e deixa a alma ferida
derramando amargor pela consciência que chora sozinha no vazio que se torna o ser...
Não se deve encerrar o sentimento, é preciso esparramá-lo para o mundo, deixar verter a dor que habita a humana consciência.
Clamar e não ser compreendido;
Querer dizer e não encontrar palavra...
Suportar a dor...
Viver para não morrer...
Por ter medo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A história de um menino

Atrás daquela janela existe uma figura de um menino lendo um livro,
O livro de sua própria vida, que se perdeu numa esquina,
Onde o esperava um destino.

Pobre menino, que hoje olha a janela
Do lado de fora,
E não pode entrar...

Menino etéreo,
Hipotético menino,
Menino do livro.

E ele segue cabisbaixo pela rua,
Triste por deixar a si mesmo atrás daquela janela,
E há muito tempo ele se encontra lá.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Margarida

A vida
sofrida
dorida
de Margarida...

Aquela
que da janela
vê João passar
e passar somente
sem nunca notar
os olhos lânguidos
que olham daquela
janela escancarada.

E ela
chora
sempre na mesma hora
e, triste
pensa em coisas mortas
e todas as portas
rangem
e os cães ladram
mas a tristeza de Margarida
persiste.

A janela é uma janela
para um mundo de
fantasias
e Margarida sonha
sonhos doces,
mas regados de tristeza
infinda.

Mais que linda
ela a si despreza
e reza
e pede a Deus
um fim trágico.
Porém, tem medo
das mãos da morte
e por sorte
não morreu de desassossego.

Margarida
uma vida
sofrida
um coração
aflito.

Mas hoje João olhou
na direção de seus olhos,
e algo aconteceu,
algo novo e mágico,
um lindo sentimento
desabrochou
mas a janela se fechou
por si mesma.
E, louca...
Margarida abriu os braços.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Anônimo

Existe uma pessoa desconhecida que chora por mim toda vez que o sol desaparece no horizonte.
Chora sem saber a razão,
E olha pela janela, e pensa como seria bom olhar nos meus olhos,
E ver-se neles, e compreender que está no meu coração.

Nos dias de chuva, essa pessoa desconhecida contempla as gotas escorrendo pela vidraça, e pensa como seria bom tocar minha pele, e sentir o calor que de meu corpo emana,
E saber que minh’alma é somente dela.

Na rua, essa pessoa procura avidamente um rosto desconhecido,
E olha para o céu, e uma lágrima escorre por sua face triste.

Ah, mas se soubesse o que se passa aqui,
Ela sorriria, e a magia nunca mais seria a mesma.
E eu não seria mais um desconhecido neste mundo de tantos amores.

Anderson C. Costa
contatosamonte@yahoo.com.br

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A fronteira

Meu amor, olha para o horizonte atrás de mim, e vê o sentimento que se derrama pelas fendas do tempo.
Não tem importância que meu início tenha se tornado na verdade meu fim...
O início sempre encerra um fim, e, meu amor, não te enganes quando ouvires os dizeres daquele que não vê a face que se esconde atrás da máscara do nascimento.

Sim, o sentimento que carrego no meu peito arde brutalmente,
E, em minha mente, imagens sobrepostas a palavras sussurradas giram com velocidade hipersônica...
Louca, realmente sem juízo.

E aqueles dizeres estampados em todos os cantos? Diáfanos, mas ao mesmo tempo estranhamente opacos. É, meu amor, sente o poder do estranho colapso da alma,
E aqueles dizeres estampados aqui neste mundo prometendo o infinito...
Uma ilusão, e meu começo é sempre meu fim.

Colapso d’alma! Compreendes isso? Não basta o que diz o tempo?
Meu amor, não percas minutos esperando a concretização de uma quimera, não iludas teu próprio ser, busca a vida; ela, que teve fim desde o início.
Olha meu rosto, sente minh’alma... calmamente analisa a profundeza de meus olhos.

Ah, como posso expressar o que sinto? Tu que não entendes o que se passa em meu ser?
Como posso expressar por meio de palavras o que não pode ser dito? Aforismos não resolvem tal caso... nem versos, nem canção,
(Nem meu pranto...)

Meus olhos encerram o segredo que tento traduzir por meio de palavras, mas tu não compreendes de fato o que enxergas. Apenas sorri diante de minha confusão, e sussurra palavras melosas, as quais entram em meu peito e aumentam minha dor...

(Mesmo tu, neste vasto mundo de dúvidas, sussurras palavras que aumentam meu desalento...)

O tempo, este senhor que se agarra ao meu coração, mina a cada momento minhas forças, e tento renascer como fênix,
Mas o fogo que arde em mim também está se apagando.

(E estou agora... agora mesmo... perdendo as palavras...)

Nada, nem mesmo a alegria das auroras, tem o poder de erguer aquele que experimentou o fim desde o nascimento.
Pois vejo, a cada dia, a verdade deste ser que sou. Sinto também em minh’alma o colapso da própria existência, que não existe por si só,
Que só existe enquanto existo,
E o que existirá depois será diferente do que existe agora,
Porque o que compreendo do mundo desaparecerá, naturalmente, comigo.

Mas o tempo continuará depois de meu mais um fim; este, que dará início a uma nova era, tempos de novos amores, ciclos de ilusões...
E o sorriso daquele que nasce contrastará com o choro daquele que parte,
Daquele que, assim como eu, compreende que entre nós existe um outro elemento...

(A FRONTEIRA entre o começo e o fim)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Interação cósmica

Minha consciência experimenta o sabor das criaturas,
E se funde ao tempo,
E experiências são sobrepostas na memória.

A imortalidade não depende mais da matéria — neste caso.
E neste condensado cósmico fantástico
Vejo um ser maior... que meu ser.

E não consigo mais duvidar do segredo que se esconde além do universo
Cognoscível...
Onde talvez resida a verdade de meu existir.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Caminhada

Um homem caminha sozinho por uma estrada serpenteante.
De cabeça baixa e ombros caídos
Ele contempla os próprios pés...
Que caminham.

Não sabe o fim de sua jornada,
Apenas caminha para chegar a algum lugar.
Caminha há muito tempo,
E não chega.

Ele se sente estranhamente cansado,
Mas deseja mesmo assim continuar sua caminhada.
E caminha mais.

Sobe morros, desce morros, atravessa vales,
E encontra uma pedra...
Sobre a qual ele mesmo está sentado há muito tempo, esperando o grande dia.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Desejando um abraço

Nesta noite chuvosa de natal
Penso como deve ser triste
Sentar-se só ao lado de um querubim
Órfão.

Mas certamente todos os querubins
São órfãos, nem que seja de um lado só.
E o querubim com um olhar triste
Murmura que gostaria de receber um abraço...

Mas os braços daquele que está ao seu lado
Nada podem fazer,
Porque sendo o querubim um ser de outra ordem,

Os abraços não são coisas para ele...
O que existe para o querubim é apenas um espaço imenso para percorrer,
E um eterno desejo de sentir o calor de um outro corpo junto ao seu.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Salada d’alma

No escuro ouço um balido...
Ou será um gemido?
Ou um grasnido?

Não sei, não ouço mais como antigamente,
Mas sei que existe algo que mente,
Que na terra consente,

A mentira como algo bom,
Como um bombom,
Que de tão bom,

Acaba promovendo desafetos,
Que de tão incertos,
Tornam-se insetos,

Mortos,
Tortos...
.... devassos.

Que quebram laços,
E destroem rimas,
E fazem a gente gemer,

E balir,
E grasnar...
Nessa louca vida,

Onde nem tudo é sonho,
Mas tudo pode ser sonhado
À revelia do tempo.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Rabisco

Um rabisco pode significar muito mais que um rabisco...
Pode ser a única forma capaz de ilustrar a dor de um coração,
Ou a única maneira de expressar o sentido que se dá à vida.
Um rabisco, bem... pode ser um pedido:

— Por favor, preciso ser compreendido.

Anderson C. Costa

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Suposta vida

Sigo acompanhando a contragosto o embalo do mundo,
E neste segundo
Algo em mim protesta...
E atesta:

— Estamos vivendo de ilusões.

Nossa vida significa nada mais que ter,
E ser,
Não importa mais,
Existe aquele que tem a maior porção.

Os amados nunca têm certeza se são realmente amados,
E os que querem amar nem sabem o que é o amor...
O amor tem marca própria... grife, e paradigmas.
[Que devem ser rigorosamente obedecidos].

Meus Deus que não mais está no céu,
Mas na TV, no shopping e na internet...
Milhões de milagres são produzidos por dia,
E os anjos estão caindo de cansaço...

E o céu está coberto de fumaça,
E a chave do paraíso está nas mãos do grande mago,
E todos estão de olhos velados,
Aguardando o momento da salvação,

Que vem carimbada por uma ordenança superior.
[E os dias vão perdendo o significado,
E a vida...
Tornou-se apenas algo que aconteceu há muito tempo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Segredo angélico

Até ali... onde vive um anjo louco...
As árvores cantam com folhas acobreadas...
Penas pairam por todo o ambiente,
Pois o anjo arranca a própria pele em fúria selvagem.

O vento carrega para longe as penas angélicas, e leva
Consigo uma gota de saudade,
Do tempo em que o anjo exibia graça...
Ah, mas o presente é a realidade, agora.
Nada mais existe de outrora...

Mas a floresta canta...
As folhas caem...O vento volta...

(E o anjo ainda ama...)


Anderson C. Costa

Perguntas

Meus versos são perguntas ao mundo... e a mim mesmo.
Mas certas perguntas não têm respostas, são apenas perguntas
que morrem junto com o desejo de ter uma resposta...

Ah, mas eu pergunto ao vento o que existe além do horizonte,
e ele sibila baixinho... em resposta.

E o desejo cresce, e o horizonte permanece lá...
E eu visito outros mundos sonhando...

Mas a realidade partiu-se quando perguntei à lua como é o rosto de meu amor.

Anderson C. Costa

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Sentido de vida e relações humanas

Algumas considerações

Não trato neste texto de questões científicas. São apenas idéias minhas aliadas a alguns conceitos da Psicologia Existencial Humanista. O que exponho no texto não tem qualidade de verdade incontestável (como toda coisa produzida pelo intelecto humano), são apenas opiniões muito minhas. Existe certa incoerência de idéias, mas nossos sentimentos às vezes são realmente incoerentes. Leia o texto e apenas reflita (se assim desejar). Sinceramente digo:
— Não se preocupe com questões de ordem científica; estas, quase sempre para nada servem. Às vezes é preciso divagar para se encontrar a verdade de si mesmo... coisa que a ciência quase nunca oferece.

Eis o texto...

A vida, em si, não possui sentido algum. A pessoa é quem dá sentido à vida... e o sentido é só da pessoa e, dela emana, significando o mundo para si.
É o sentido de vida que move o ser humano; é o sentido que a pessoa dá ao mundo e às suas experiências que a mantém em constante devir. A falta de sentido leva a pessoa ao adoecimento, a incapacidade de dar sentido às experiências torna o sujeito um ser “apagado”, inerte.
Nas relações humanas, o dar sentido à relação é de vital importância. Uma relação humana pode ser conceituada como uma experiência entre duas pessoas e, nos relacionamos sempre com uma pessoa de cada vez. “Estou num grupo de muitas pessoas, conversando animadamente, relaciono-me com uma pessoa de cada vez, apesar de dar atenção a todas. Minha relação é singular com cada uma delas.”
Há algum tempo venho observando as pessoas em seus círculos relacionais; notei uma carência de certos elementos essências à saúde das relações.
Aceitação do outro. É muito difícil aceitar o outro como um igual, mas é absolutamente necessário para um bom relacionamento. Quando se aceita o outro, torna-se possível o estabelecimento de um feedback sem distorções, ou seja, sem influências que atrapalhem a comunicação.
Compreensão. Compreender o outro é indispensável num relacionamento entre seres humanos. É preciso compreender o outro sem influências de terceiros; é preciso que EU compreenda o outro através de minha experiência com ele. É necessário deixar todos os preconceitos de lado, e compreender a pessoa como alguém semelhante a mim, ou seja: compreendê-la em sua condição de ser humano.
Escutar. Outra condição necessária ao bom relacionamento. Muitas vezes as pessoas apenas ouvem, mas não escutam realmente o que o outro tem a dizer.
Empatia. Estar por dentro do mundo do outro, ou seja, participar do sentido que a pessoa dá ao mundo e à vida. Por meio da empatia torna-se possível experimentar o sentido que o outro dá as suas experiências. Não é possível experimentar plenamente, mas podemos tentar experimentar da melhor forma possível.
Nas relações humanas é preciso que todos se expressem como seres humanos. Cada ator deve participar do relacionamento desprovido de máscaras, ou seja, munido apenas de seu ser verdadeiro.
Tenho percebido (e escutado) que certos casais têm dificuldades em se entenderem. Tanto o homem, quanto a mulher, às vezes não consegue compreender, aceitar e escutar o companheiro(a). Nem um nem outro se preocupa verdadeiramente com o sentido que o parceiro(a) dá ao relacionamento e à vida, ou seja, falta empatia. É necessário que cada um conheça um pouco do sentido que o outro dá às experiências que compartilham no mundo, bem como é indispensável conhecer o sentido que tem para si mesmo tais experiências.
Algumas pessoas que tenho escutado dizem que buscaram realização no namoro, casamento, trabalho e amizades; porém, não se sentem satisfatoriamente realizados. O problema é que não buscam o sentido da relação, e perdem o sentido da própria realização, pois confundem realização com diversas coisas, tais como: posse de bens materiais, um parceiro(a) desprovido de defeitos, uma vida quimérica idealizada nos moldes dos contos de fada (não necessariamente contos antigos). Um relacionamento não deve ser alimentado por ilusões, mas, antes, pela realidade. Quando alimentado por ilusões, ao surgir a verdade, o relacionamento raramente resiste.
É perfeitamente possível um relacionamento feliz e produtivo; seja casamento, namoro, amizade, relações no trabalho, etc. Mas é preciso sempre compreender, aceitar, escutar e partilhar do sentido de vida do outro. A falta disso leva à frustração, e o sentido de vida é comprometido, o que torna a existência um fardo difícil de carregar. Além disso, é indispensável conhecer perfeitamente o próprio sentido de vida, para não ser enganado por supostos sentidos. Também é muito importante que cada ator seja consciente de suas qualidades e defeitos, ninguém deve se sentir superior ou inferior ao outro. Cada um deve compreender que possui certas qualidades, e certos defeitos, mas que isso não o torna inferior ou superior ao outro — o torna apenas singular.
Para encerrar, é importante dizer que não é possível existir relação humana (autêntica) sem amor. Amor pode ser definido como uma relação entre duas existências que existem no mundo. O amor pode ser em menor ou maior grau, dependendo do tipo de relação, mas deve existir sempre. Amar significa aceitar o sentido de si e do outro, e buscar dentro da realidade a melhor forma de conviver com a outra pessoa. Por essa razão, amores pautados em ilusões raramente sobrevivem aos desafios da realidade, pois é difícil aceitar a autenticidade de um algo que antes parecia perfeito. A perfeição não existe, o que existe é a possibilidade de ser alguém melhor dentro da realidade da existência.
Confesso que fui um pouco sentencioso neste texto, mas são apenas hipóteses minhas. A metodologia cientifica neste contexto não me interessa... minimamente.


Referências

BENJAMIN, Alfred. A entrevista de ajuda. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004. 207p. ISBN 8533620527


FRANKL, Viktor Emil. Em busca de sentido: um psicologo no campo de concentração. 19. ed. rev. São Leopoldo: Sinodal; Petropolis; Vozes, 2004. 136p. (Logoterapia; 3) ISBN 8523302743.


Anderson C. Costa
Santo Antônio do Monte
contatosamonte@yahoo.com.br

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Horizonte

Contemplar, sozinho, o horizonte, é uma tarefa para o homem que consegue dialogar consigo mesmo.

Contemplar o horizonte é como contemplar o fim do mundo,
Dá um aperto no peito, e uma vontade de buscar algo perdido...

Do mirante, ouvindo somente a voz sussurrante do vento, e avistando a linha última do plano circular, a subjetividade do observador assoma.

Pensamentos tornam-se audíveis... e medos tornam-se palpáveis.
Perde aquele que não consegue encontrar-se consigo mesmo.

No centro do mundo, rodeado por um plano esférico limitado, o observador perde a Visão... e mergulha num abismo interior.

No centro de si mesmo, no âmago que foge a todo entendimento, ele chora...
E suas lágrimas regam a terra do plano inferior ao mirante.

Nasce na terra uma esperança... em forma de uma vida fugaz.
E o observador contempla com a alma a beleza do fruto de seu pranto.

Do interior de si mesmo nasce uma luz, que ilumina sonhos esquecidos...
Ah, quanto ainda chora o observador!

A dor que sentira vai sendo substituída por um desejo,
E ele agarra um sonho pelas asas, e o abraça com carinho.

O observador recobra a visão, e contempla com novo olhar o horizonte.
Com aquele novo olhar ele descobre algo novo...

O fruto de seu pranto resistiu às intempéries do tempo,
E gerou por si mesmo algumas verdades...

Não existe vida sem tormento... não existe vida sem felicidade,
Não existe vida sem amor...

Existe o homem que não tem coragem de sondar a si mesmo,
Existe o homem que nem mesmo sabe que está vivo...

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Singularidade

Eis a singularidade:
Nua, perversa, hedionda.
Com passos de eternidade sonda
Nossas existências sintéticas.

Singularidade;
A síntese de toda perversidade,
De sua titânica realidade
Vem nos assombrar a consciência.

O que farás singularidade ávida?!

A avidez de sua existência,
Entidade sem qualquer clemência,
Rasga-nos as veias e nos suga o sangue morno.

Existência titânica
Que com eterna arrogância
Caça voraz nossa essência.

Fruto do adultério de deuses,
Hediondo âmago perverso,
Dos confins do universo
Vem rondar nossos sonhos.

Existência onipotente,
Que junto com a terra sente
O sabor de nossa mortalidade execrável.

Singularidade imemorial,
Existência imaterial,
Verdugo do mortal,
Assassina da carne vil,
Senhora do negrume eterno,
Fruto ignóbil da criação cósmica.

Mate-me! Mas não terá minha alma.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O criador e as significações humanas

Considerações

Caro leitor, neste texto você se deparará com questões como: Deus e o sentido da vida humana. Não tenho intenção de desvalorizar, criticar, ou contestar qualquer religião ou crença. Também, não tenho a intenção de criticar ou contestar qualquer ensinamento teológico, bem como contestar descobertas cientificas ou qualquer outra coisa alcançada pelos esforços humanos. Minha intenção é somente expressar livremente meu pensamento; minhas idéias a respeito de Deus e da existência. Enfim, este texto não tem como objetivo destruir a fé de ninguém, nem contribuir para o esfacelamento de qualquer produto concebido anteriormente pelo intelecto humano. Quem conseguir ler o texto, por favor, encare-o de forma crítica, e pense livremente — não o aprecie como uma verdade incontestável, ou como uma afronta à ordem contemporânea.

O que é Deus

Deus, onipotência em essência; potência criadora, poder incomensurável. Tudo isso é Deus — segundo a visão humana do que é um deus.
Não obstante, a visão humana de Deus, é, de certa forma, incompleta; para não dizer incorreta. Tudo o que existe ao nosso redor, e além de nossa alçada cognoscível, foi criado; não criado num determinado tempo, pois o tempo é uma invenção tipicamente humana. A criação ocorreu num espaço sem tempo, uma vez que o tempo não existia no momento da criação — que nem pode ser classificado como um momento; mas, como precisamos significar as coisas, torna-se necessário o uso de alguns termos, infelizmente, errôneos.
O que chamo de criação é o universo onde habitamos, e, obviamente, nosso planeta. A não existência era o que imperava antes dessa criação, mas na não existência existia algo, um algo que não podemos classificar, mas um algo que afinal era uma coisa. Essa coisa, impossível de ser apreendida pelo ser humano, constituía e constitui o material do que hoje somos, e essa coisa residia e ainda reside num espaço singular; e não residia/reside sozinha naquele lugar, que nem lugar era ou é, já que não existíamos para classificá-lo como um lugar ou espaço, e hoje não conseguimos classificá-lo por ignorar sua natureza. Junto daquela coisa titânica, existiam e existem outras não existências (não existências porque somos incapazes de classificá-las) que deram — e dão — origem a outros espaços semelhantes e diferentes do nosso.
Esse material ante-primevo residia e reside num espaço imenso, onde residem outros espaços, e o criador é a energia que possibilita o devir de todas as coisas desse não espaço. O criador não é um espírito, não tem sentimentos, não tem desejos, não tem forma; não tem nem mesmo existência, visto que ignoramos sua verdadeira essência. O criador é um criador que apenas cria, é uma energia que gera ciclópicos movimentos que resultam em espaços e outros elementos inclassificáveis.
A tarefa do criador é apenas criar, e, talvez, ele é fruto de uma energia ainda mais titânica que ele, uma outra energia além do próprio criador. Caro leitor, sei que são bastante confusos os conceitos que exponho neste texto, mas entenda que estamos tratando de algo além de nossa própria capacidade de abstração, não existe nada mais confuso que este assunto, visto que estamos tratando de algo que nem mesmo conseguimos classificar.
Voltemos ao que interessa.
É verdade que essa idéia de uma energia que comando o próprio criador dá margem a outra idéia de um exercito infinito de energias criadoras. Mas isso não me preocupa, pois quero tratar apenas do criador que inventou nosso universo; mais tarde, se minha mente for capaz, tentarei resolver tal problema.
O criador criou simplesmente por criar. Amigo leitor, você pode dizer que assim toda a criação é deveras sem sentido. E é mesmo, a existência, para nós, não encerra sentido algum. Nós criamos nossos próprios sentidos, e muitas vezes sentimos uma falta de sentido tão grande que quase sucumbimos. Nossa salvação é conseguirmos inventar sentidos de vida, e sentir esses sentidos.

As significações humanas

O verdadeiro sentido da existência não pode ser apreendido por nós, pobres humanos. O sentido primeiro existe, mas ele existe além de nossa capacidade de entendimento, assim, em nosso plano, ele não existe, de fato. O sentido é conhecido pelo criador, que cria por alguma razão por ele conhecida. O criador é um algo, uma existência existente no plano dele, mas não existente no nosso plano, visto que não podemos classificá-lo. O que chamamos Deus, deuses, ou qualquer outra coisa de poder supremo, nada mais é que uma vontade tipicamente humana elevada a status de onipotente. Todas as invenções onipotentes têm características tipicamente terrenas: são parecidas com animais ou pessoas, ou coisas que podemos apreender com nossa inteligência e sentidos, e encerram características que nós conhecemos e classificamos com nosso aparato classificatório.
Atualmente, as invenções onipotentes estão perdendo lugar para a ciência, que nada mais é que outra invenção tipicamente humana que tenta desvendar e dar sentido à existência. Como as invenções onipotentes, a ciência significa apenas aquilo que pode ser entendido pelo intelecto humano. Por essa razão, o plano além de nosso universo continua e continuará além do limiar das possibilidades. A filosofia bem que tentou desmascarar a verdade da existência, mas só conseguiu inventar uma grande quantidade de material inútil a esse desmascaramento. A filosofia só inventou idéias úteis às coisas possíveis de serem apreendidas pelo intelecto humano, e ainda inventou a idéia de que existe a verdade. A única verdade é a verdade da existência, e por ser uma verdade impossível, ela tem riqueza de existência, mas é inexistente ao mesmo tempo — levando em consideração que não conseguimos aprendê-la verdadeiramente. As verdades que conhecemos por meio da ciência, da filosofia e das religiões, crenças e outras invenções humanas, nada mais são que verdades de terceira categoria, verdades por demais terrenas, que servem para nossa atividade de inventar sentidos de vida.
Esta nossa capacidade de inventar verdades e sentidos, criar classificações, buscar sempre verdades e mais verdades; é uma capacidade essencial à vida, e foi enfiada em nós pelo criador, que, possivelmente, criou juntamente conosco outras tantas criaturas, talvez, bem mais espertas que nós. Mas isso não importa, o que importa realmente é viver e buscar sentidos. Gosto de divagar; assim, significo o mundo, para mim. Atualmente as pessoas estão buscando sentidos no consumismo, e em outras tantas coisas igualmente inúteis. A humanidade está esquecendo que não existe, para si, um sentido pleno. Precisamos inventar nossos sentidos, mas precisamos de sentidos menos letais. Os sentidos contemporâneos estão por demais inflamáveis... e voláteis.
Não precisamos de um excesso de sentidos; precisamos apenas de sentidos que realmente signifiquem algo em nossa vida. Uma vida que deve carregar um significado para o portador; um portador ativo, não um autômato que vive de fugazes sentidos alheios.

Anderson C. Costa
Contatosamonte@yahoo.com.br

sábado, 1 de novembro de 2008

Viagem no tempo

Lapso...
De tempo.
E neste momento,
O mundo...
Explode.
E eu,
Que vagava por terras insólitas,
Volto...
No instante em que ela [a era humana]
Termina...
Para sempre.
E agora derramo lágrimas sobre o que não existe... mais.
Mas onde minh’alma habitará?
Questiono-me, pois não existe a quem questionar.
Como é terrível estar onde não se produz eco...
Sou a única subjetividade, aqui, neste ermo insosso.
Perscruto o infinito, e não encontro nada...
Mergulho então rumo ao passado, e me perco na muralha que separa as eras.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Excesso humano

Existem seres humanos demais no mundo?
A questão acima é hoje, na contemporaneidade, muito discutida em todo o mundo. Zygmunt Bauman, em seu livro “Vidas Desperdiçadas”, discute essa questão e, tece uma visão esclarecedora a respeito de como a idéia de superpopulação é encarada hoje por toda a sociedade de consumo, ou seja, a sociedade do “nós”.
Será discutido nesta resenha apenas o capitulo “Serão eles demasiados?”. Neste capítulo, o autor apresenta de forma brilhante como os indivíduos considerados inúteis ao progresso econômico são excluídos da sociedade consumista e, como são acusados de provocarem os problemas populacionais enfrentados na atualidade.
Um país populoso era sinônimo de poder militar e econômico, mas, com a industrialização crescente, grande população se tornou sinônimo de problemas. Assim, o problema era resolvido “exportando população”, ou seja, deslocando para outros lugares indivíduos que, de certa forma, poderiam ser lançados para fora do país sem prejuízos, pois sua existência não era de grande valor para o estado. Bauman afirma que os países mais desenvolvidos precisavam encontrar locais “vazios” para depositar todo seu excedente, então, lançavam mão de sua superioridade tecnológica e militar para esvaziar áreas habitadas por pessoas entendidas como inúteis ao progresso, indivíduos habitantes de lugares ainda não tocados pelos processos modernizantes. Esse tipo de ação acabou por provocar terríveis massacres em vários pontos do mundo.
O progresso econômico, parece, segundo Bauman, ter gerado dois tipos de indivíduos “imprestáveis” à sociedade de consumo: os de “vida indigna de ser vivida” e “os excedentes”. Estes últimos, parecem ser encarados mais como um acidente do progresso e, os primeiros, são os inúteis em essência, a escoria humana. Esses dois tipos de indivíduos são o “lixo humano”, ou “refugo humano”, como explicitado por Bauman. Eles são os “imprestáveis”, os inúteis à sociedade de consumo, os que não conseguem acompanhar as rápidas mudanças impostas pelo crescimento, impostas pela globalização.
Os problemas da superpopulação são encarados pela sociedade de consumo como conseqüência da alta taxa de fertilidade dos indivíduos “imprestáveis”, sendo necessário erradicar sua proliferação. O autor diz que o projeto que distingue “imprestáveis humanos” das pessoas úteis, encara a fecundidade dos “imprestáveis” como de grande ônus ao planeta, pois sua proliferação significa maior gasto de energia e outros recursos diversos, tirando da sociedade de consumo os recursos necessários à manutenção de seu modo de vida compulsivo e extravagante.
A sociedade do “nós”, ou seja, para Bauman, a sociedade de consumo, se preocupa em como lidar com os “imprestáveis”, já que eles são a escoria, os marginais, que devem ser temidos, pois não têm perspectivas perante a realidade globalizante. O estado aproveita-se dessa insegurança e lança sua ideologia dominante, prometendo proteção em troca de obediência. O estado, antes o herói diante das incertezas econômicas, agora se torna o guardião pessoal dos indivíduos consumidores contra o “lixo humano”. “Os imprestáveis” são chamados pelo estado de “bandidos”, “marginais”, “terroristas” e, estes, não podem se defenderem, pois são mudos, são invisíveis como pessoas.
Mas, devido ao crescente processo modernizante, a sociedade de consumo produz muito lixo que não pode e não deve ser deixado a céu aberto no território dos países desenvolvidos, surge então uma utilidade para os “imprestáveis humanos”: recolher o lixo gerado pela sociedade consumidora. O problema é que a sociedade de consumo precisa de mais e mais “coletores de lixo” para manter seu modo de vida extravagante, mas não quer admitir isso, não quer aceitar a culpa pelo colapso. Dessa forma, os países ricos fazem aliança entre si para fechar suas fronteiras, impedindo a entrada de pessoas indesejadas, importando apenas o necessário para a limpeza. Outras vezes, exportam para os países em desenvolvimento também o lixo produzido pelas indústrias, transformando territórios inteiros em grandes lixões. Assim, têm-se o modo de vida consumista preservado e toda a nação fica de consciência limpa.
A forma como autor tece seus argumentos, deixa a idéia de que: o problema da superpopulação não é de responsabilidade dos considerados “lixo humano”, mais sim do modo de vida capitalista, que exige cada vez mais “lixo humano” para limpar o lixo produzido pelo modo de vida extravagante da sociedade consumista. Porém, o Estado, em nome da segurança pessoal do indivíduo consumidor, prega a discriminação em massa, como forma de manter sua legitimidade. A sociedade consumista torna-se, então, impessoal, deixando para as regras do mercado a responsabilidade pela exclusão dos “excedentes”.
A leitura do texto de Bauman é, de certa forma, chocante, pois apresenta a realidade contemporânea de uma forma inovadora, levando o leitor a pensar sobre para onde caminha a civilização contemporânea e, o que de bom tem o chamado progresso. O problema dos “indivíduos supérfluos”, apresentado pelo autor, permite uma profunda reflexão sobre qual o papel do Estado na vida da sociedade contemporânea, visto que a maior parte da população mundial encontra-se fora do nível econômico considerado razoável pelo sistema capitalista. Dessa forma, o Estado é um aliado do povo ou seu algoz? Mesmo se um Estado em desenvolvimento conseguir galgar os degraus do progresso econômico, o que será de sua população excedente? “Os imprestáveis” continuarão a serem jogados para fora da sociedade, serão massacrados pelo ideal capitalista? E, como resolver os problemas causados pelo aumento de corpos humanos? Como conscientizar a sociedade de consumo — protegida pelo Estado — de que seu modo de vida extravagante pode destruir o mundo? São muitos problemas e pouca gente disposta a resolvê-los. Através de muita reflexão, talvez seja possível encontrar soluções plausíveis. Esclarecimentos como os proporcionados por Zygmunt Bauman tornam-se importantes para a concretização dessa difícil tarefa.


Referência bibliográfica

BAUMAN, Zygmunt. Serão eles demasiados? Ou o refugo do progresso econômico. In: BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. Cap. 2, p. 47-79.

Bibliografia consultada

NETA, Orgides Maria da Silva. Vidas desperdiçadas. Resenha In Revista ACOALFAplp: Acolhendo a Alfabetização nos Países de Língua Portuguesa, São Paulo, ano 2, n. 3, set. 2007.
Anderson C. Costa

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Último lamento

Do negror da noite surge um bravio gemido
De um animal em agonia.
Levanto tonto,
E olho através do olho do tempo...

Vejo a mim mesmo no último momento,
A berrar de tormento,
A esbravejar contra a morte...
De rosto incruento.

Aterrorizado, levo a mão à boca,
E abafo um silvo de terror,
Mas não abafo o medo

Que corrói meu coração.
Ouço novamente meu próprio lamento (futuro)
E vendo os ouvidos... para não escutar a verdade.

Anderson C. Costa

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Meus olhos

Algumas pessoas dizem que sou estranho, pois não faço o que a maioria das pessoas fazem.
Algumas pessoas dizem que sou misterioso, pois ninguém sabe realmente o que faço ou penso.
Muitas pessoas dizem que sou feio, pois não estou dentro de padrão de beleza algum.
Algumas pessoas dizem que sou inteligente,
Algumas pessoas nem sabem realmente o que pensam de mim.
Estas últimas... estão com a razão.
Não sigo paradigmas,
Não posso ser comparado a nada,
Sou uma singularidade em mim mesmo...

Não tente descobrir o que se esconde por detrás dos meus olhos,
Pois você verá apenas o seu próprio reflexo.

23/10/2008

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Desapego

Arranco de meu coração uma nebulosa, que há muito habitava meu peito.
Seguro-a na mão, vejo-a azúlea piscando para mim, mas não caio em seu encanto.

Tenho medo de perdê-la, mas não agüento a dor que tal tesouro m’incita.
Lanço-a então rumo ao infinito, e sinto uma lágrima descendo por meu rosto...

Lá se vai ela, jurando amor...
Cínica, de cintilar encantador.

Ela encanta... engana com falsas promessas, falsos olhares, falso amor.
Mas é melhor sofrer agora, que morrer suplicando um pouco de carinho.

Lá se vai ela, derramando falsas lágrimas...
Lastimando com veemência.

Tenho um mundo para descobrir, tenho a mim para encontrar...
Não posso ficar preso a uma quimera, a esta azúlea existência tirana.

Olho uma ultima vez, e sem me despedir,
Saio em busca de meu futuro... sem ela.

(E me sinto mais leve...)

Anderson C. Costa

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Sobre o viver

Existir! O que significa existir?
O ser humano existe, não é opção existir, é imperativo.
Nosso existir é forçado, imposto, um fardo que não escolhemos carregar.
O existir é tão doloroso que inventamos mil formas de amenizar a agonia. Inventamos religiões, crenças de todo tipo, ídolos; até mesmo a ciência.
Todas as invenções humanas têm um único fim: amenizar a dor de existir. A Filosofia ao longo do tempo vem pensando o existir, mas suas idéias são absolutamente inúteis, pois são incapazes de erradicar essa dor.
Assim como a Filosofia, a ciência em geral falha escandalosamente, pois não conseguiu e não consegue erradicar os infortúnios da existência. Pode sim, diminuí-los um pouco e, às vezes, adiar o inevitável; mas erradicar: nunca!
As religiões, crenças, e outras práticas espirituais algumas vezes têm mais sorte que a ciência, pois lidam com coisas não palpáveis, com poderes titânicos inexplicáveis. Mas da mesma forma que as outras invenções humanas, falham, pois conseguem apenas mascarar a verdade de que somos simples mortais, e que vivemos a nossa própria sorte.
A existência suprema, criadora de todas as essências, reside em um plano tão supremo que a ela não somos mais que insignificantes pontos num universo ciclópico, um universo longe de toda compreensão humana — não falo desse universo em que estamos inseridos, falo de um universo muito maior, o universo da própria existência suprema.
As religiões e crenças captam um pouco do sentido da potência criadora, mas pecam quando dá a essa potência características humanas. Uma potência criadora, sendo algo de poder tão supremo, não veria sentido em punir existências tão insignificantes como a humana. O nosso fazer é por demais simples, por demais humano, astronomicamente distante do fazer da existência suprema. E mais: fomos criados por essa existência suprema, nossos defeitos foram criados por ela, não adquirimos por vontade própria; negar isso, é negar a própria existência.
Como existências, somos capazes de controlar nossos defeitos; e devemos fazer isso, caso contrário, nenhuma sociedade torna-se viável. Podemos fazer escolhas, pois somos seres de possibilidades. Não podemos fazer o que está fora de nossa capacidade de fazer, ou seja: entender plenamente a essência da vida e compreender a verdade da própria existência.
A dor do existir é fruto do desconhecimento do verdadeiro significado desse existir, da incapacidade de entender nossa própria essência. Diante dessa dor imensa, desse sentimento de profundo desespero existencial, o ser humano se vê obrigado a inventar formas de amenizar sua dor, aí, surgem: religiões, crenças, ciência, etc.
Na contemporaneidade, o desejo de amenizar a dor do existir tornou-se uma psicose coletiva, surgindo assim o capitalismo demente. Consumimos cada vez mais para sermos mais felizes.
Nosso modo de vida absurdo devorará tudo, até mesmo nossas pobres almas desamparadas. A humanidade está cavando sua própria sepultura, mas ninguém percebe, todos gozam seus confortos e buscam preencher com futilidades contemporâneas o vazio dorido, que teima em permanecer dentro de nossas almas.
Eis a verdade de ser humano...


Anderson C. Costa

14/10/2008

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A certeza

O certo não é certo até que provem que o certo é algo certo.
Mas quem vai provar que o certo que provou a certeza do certo
É realmente certo?

Eu não sei ao certo...
E nem quero estar por perto,
Quando alguém descobrir que o certo é apenas uma quimera.

sábado, 11 de outubro de 2008

Redundante

Segue pela rua o sujeito redundante.
O pobre não tem consciência de seu excesso,
Ele apenas sobrevive e sonha.

Favela:
Amontoado de vidas redundantes;
Vidas vivas, evidentemente.
Que vida?!

Vida redundante;
Sujeito sem posse.
Posse — Material: poder contemporâneo.

Sujeito redundante!
Sonhos. O pobre sonha:
Mas o pobre não realiza.
Vida?

Segue pela rua...

Troar... BALA!!
Sonho... Vida...

Negrume...

O excesso foi suprimido.


Anderson C. Costa,
29/07/2008

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Prelúdio ao desterro

O vento varre a rua deserta, carregando folhas secas e sujando as calçadas. Hélio segue sozinho: mãos no bolso, cabeça baixa, olhar entristecido. Segue sem rumo certo, sem palavra, com vontade de desprender-se do mundo em que está metido. Verte triste sua vontade, e com o coração rachando de dor, segue com pernas errantes; boca seca e olhos lacrimosos.
Há momentos em que um homem precisa perscrutar a si mesmo, vasculhar a alma em busca de verdades, encarar os monstros que habitam o ambiente abstrato dos desejos e, também, jogar algumas reminiscências no esquecimento — mas ele não consegue fechar o ferimento que sangra dorido.
A vida se esvai lentamente, escorrendo leitosa pelas frestas do coração em prantos — que grita por socorro, um grito sem som [nem mesmo rouco]...
Subitamente, ele avista algo, e seu coração se enche de alegria, e toda a dor desaparece instantaneamente:
— Hélio cai morto sobre a calçada fria.

Anderson C. Costa
08/10/2008

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Sentir o sem sentido

Sem sentido... tudo desprovido de sentido.
A vida não tem sentido, pois morre.
O amor é um sem sentido
Que arde dorido
No coração de toda gente,
Que sente,
A falta de sentido de amar.

O nascer de uma criança não tem sentido,
Pois ela começa a morrer desde o primeiro instante.
Labutar diariamente não tem sentido,
Visto que o tempo passa enquanto estamos
Fechados a produzir inutilidades,
Que não nos garantirão a eternidade.

Sem sentido... desprovido de significado.
Contemplar o céu não tem sentido,
Pois existem hiatos misteriosos entre as estrelas.
O sexo não tem sentido, pois encerra um sentir
Subjetivo muito distante para o outro, e é um ato
Induzido por um endoplasma primevo,
Que tem por função manter as espécies sob controle.

Meu versejar não tem sentido,
Pois verte confuso por brancas páginas,
Escorrendo lerdamente para fora de minha mente,
Que mente,
Que grita,
Que revela a verdade que, assola-me...
Constantemente.

Enfim,
Deus não tem sentido, pois é um conceito abstrato
Distante da experiência humana — que não passa de uma síntese
Simples de uma vontade titânica.

TUDO tem sentido... para o suposto criador,
Que reside num suposto ciclópico plano,
Somente possível do ponto de existência dele...

E ele cria, e lança todas as essências
Em existências vazias...
De sentido.

(E eu sinto minha falta de sentido, um sentir sentido...)

07/10/2008

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Fusão

Beijo-te o pescoço, sussurro palavras de amor ao teu ouvido,
Acaricio tua boca com meus lábios,
Beijo-te o queixo...
Em segundos meus lábios vão tomando a forma de teu seio...
Ouço murmúrios de amor,
E mergulho na doçura de teu corpo,
E nos tornamos um só... ser,
Unidos por prazeres líquidos.

(Amanhã, lembrarás meu nome?)

03/10/2008

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Suposta verdade (Haikai)

Amor e posse são sinônimos,
Assim como Deus e o Diabo
O são...

02/10/2008

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Segundo

De minha janela vejo o mundo,
Um mundo onde todo mundo
Vive a esperar o próximo segundo...

O segundo chega, e trás consigo a verdade...
Do momento... despida de toda falsidade,
E coberta simplesmente de realidade.

E a vida não para ali... naquele segundo,
O tempo continua dando sua volta ao mundo,
Despertando na gente um sentimento profundo,

Que chega a causar medo... e tristeza,
Pois o tempo leva a beleza,
Dada a nós pela natureza...

Beleza impecável, mas que muda tanto,
Que o ser chega a perder o encanto,
Que até provoca espanto

Naqueles que no instante são belos,
Mas que um dia serão apenas singelos...
Seres próximos do fim.

16/09/2008

sábado, 27 de setembro de 2008

Enigma

O último homem retornou a terra,
E encontrou-a...
Vazia!

Sentiu-se muito só,
E gritou...

O grito contornou o globo,
Transpôs montes e cidades,
Enfiou-se em todos os cantos...

E retornou ao homem,
Que, ouvindo a si mesmo,
Caiu morto...

E alguém chorou baixinho...

(Poema escolhido para fazer parte do livro "Maço de poemas", organizado pela Corpos Editora, de V.N. Gaia, Portugal.)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Mentalidade

Minha vida mental é uma mistura medonha de pedras, espinhos...
E uma pitada de absinto.
E nem mesmo sei o que sinto,
Neste encéfalo aceso, repleto de impulsos vitais.

Mergulhado em dúvidas ancestrais,
Vivo dividido em instâncias mentais,
E perco-me em tamanha complexidade patogênica...
Em mim, congênita.

Parte de mim sou eu, outra...
Essa última, desconheço.
E vivo sem fim e começo,
E a mim nem reconheço.

Mas estou a vagar pela existência,
Tentando desvendar enigmas,
Quebrando barreiras...
Destruindo conceitos... meus.

23/09/2008

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Reflexões sobre a existência

A liberdade provoca angústia, e cinge o coração do humano. A angústia instala-se, e tudo se torna negro e cercado de muros intransponíveis. O homem, como ser de possibilidades, angustia-se com o seu vir a ser, e não admite o que é, e deseja ser o que não é, mas tem medo de deixar o que é para tornar-se o que deseja ser.
A felicidade plena, não existe. A felicidade plena é uma utopia, uma doce quimera que leva o homem ao delírio. A felicidade é um alimento para as mais belas fantasias, e todos a buscam incessantemente. O que podemos fazer é fazer nosso fazer o melhor possível, para tentarmos viver da forma mais digna e humana possível.
O amor, uma relação entre duas existências que existem no mundo. Não é possível haver amor entre um ser no mundo e um ser que não está no mundo. O que existe é uma vontade de ter-mos ao nosso lado um ser que não existe, ou seja, uma vontade de receber os benefícios de um ser que não existe — ou não mais existe. — como um ser concreto.
A morte, não é uma possibilidade, é o algo mais concreto existente no mundo. A morte é o fim, a não existência da vida, o desligamento do ser de suas possibilidades, o desligamento da condição de ser no mundo. Um dia ela vem, apesar de ser alcançada, também, voluntariamente. Quando é voluntária, pode ser encarada como uma possibilidade; uma possibilidade de não ser.
Ser humano dói; ser humano machuca. A condição de ser um ser que existe é por demais arriscada, muitas vezes bastante funesta... e bela ao mesmo tempo. Temos liberdade, e podemos escolher entre viver e morrer (voluntariamente), e essa liberdade é angustiante; mas necessária. Morrer é extinguir as possibilidades (pela extinção do ser), e viver é tentar realizar o melhor possível essas possibilidades.
Morrer seria a solução? Impossível responder. A morte foge ao nosso plano de conhecimento, é um terreno insondável, e o que existe além — se é que existe alguma coisa. — pode ser ainda mais doloroso que o que existe aqui. A transcendência da alma para o além vida, é uma possibilidade impossível —pensando em termos lógicos e humanos. Não obstante, podemos sim pensar nessa transcendência, e caso pensemos com esmero, podemos imaginar diversas possibilidades funestas — e outras tantas melhores que as que existem em vida. Assim, continuar vivendo, ou morrer voluntariamente, são coisas que podemos escolher, mas não temos como escapar da angústia de escolher uma ou outra.
Eis o resultado de ser um ser humano.

Anderson C. Costa

19/09/2008

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Pensamento

Sempre me pergunto se o que penso é realmente um pensamento meu.
E pensando nesse problema,
Acabo pensando que esse pensar sobre o que penso
Nada mais é que um pensamento pensado por alguém,
E enfiado na minha cabeça para parecer que
Foi pensado por mim.

Pensando obsessivamente nisso,
Acabo pensando outros pensamentos, e me meto em nova confusão...
E acabo pensando que o pensamento é uma ferramenta
Para se pensar o próprio pensamento,
Que, sendo pensado por um ser pensante,
Nada mais é que um pensamento excessivamente pensado.

É um jogo... compulsivo...
Chega a provocar dor de cabeça,
E leva a pensar tudo às avessas.

Mas vamos pensar:
Se eu penso meu pensamento, então,
Quem pensou em fazer um pensamento capaz
De pensar o próprio pensamento que pensa
Sobre as coisas que precisam ser pensadas?

Paro por aqui...
E deixo o pensamento pensar por si mesmo...
É um jogo.

17/09/2008

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Profecia

Você, que agora vê os genitais de minha alma, cubra os olhos,
E não mergulhe em tamanha volúpia.
Apresento-me nu, desprovido de minhas barreiras psíquicas,
E escandalizo os mortais...

Eu grito, e minha voz ecoa pelos confins do ego do humano,
E minha volúpia contamina a mente dos deuses...
E veja, o mal me persegue, ele quer devorar minha essência,
E o povo aplaude, e cospe sangue... e ao mesmo tempo,
Todos os seres gritam com bocas mortas...

E o som morre nos montes, e a luz some, e a existência se esvai:
E todo o corpo vira pó.

20/08/2008

sábado, 6 de setembro de 2008

Assim como o vento

Assim como o vento — alegre,
Circundo o mundo em despreocupado fazer só meu,
E transponho montes... e vôo sobre os mares — eternos.
E minha vida é prazer, é liberdade...

Assim como o vento — moleque,
Emaranho cabelos, e carrego desejos,
E levo comigo amores perfeitos — belos.
E minha vida é magia, é sentimento...

Assim como o vento — indisciplinado,
Devasso subjetividades, e descubro volúpia,
E mergulho no mar de desejos libidinosos — ardentes.
E minha é vida é carne, é pulsão...

Assim como o vento — fugaz,
Meu tempo passa, e vejo no horizonte,
O fim de minha sina — triste.
E encaminho-me para o plano das saudades...

31/08/2008

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Vida líquida

A vida se equilibra sobre precárias bases:
Mortal,
Misteriosa,
Humana.

Corpos orgânicos, mentes em guerra;
É a vida que vivemos sobre a terra.
Vida líquida, que escorre por entre os dedos:
Que se esvai acompanhando o tempo.

Chegará o dia em que o corpo nada mais sentirá,
Em que a luz fugirá das retinas fatigadas do humano,
E os vermes banquetearão com a existência orgânica
Do homo:
Homo-sapiens, apenas homem,
Apenas uma lembrança...

domingo, 31 de agosto de 2008

Eu significante

Eu, que me apresento ao mundo como um significante,
E que sou um significado para o outro,
Não sei eu mesmo o que significo para mim:
— Deveras...

O jogo de significantes e significados me confunde,
E às vezes significo para mim o que o outro deseja
Que eu signifique:
— E sofro...

Mas sendo um significante que significa algo,
Perscruto o horizonte de minh’ alma,
E só encontro significados velados.

O algo que significo, foge de mim mesmo,
E corro em busca de sentido,
E vivo mergulhado em nem sei o que...

30/08/2008

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Cidade grande

Homem prédio carro
bicicleta cachorro
Buzina
semáforo tiro poluição sujeira:

TUDO!

Tudo e muito mais!
Cidade: confusão, conjunto de objetos sólidos...
[Mistura de sólido e abstrato:
E eu estou no meio de tudo isso...
Meus Deus!
Até que a morte nos separe...

06/08/2008

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Humanidade incondicional

Ao lhe ver senti sua dor: fria, triste, mortal.
Ofereço-lhe meu ombro, chore quanto quiser...
Nessa vida somos pobres atores,
Tristes seres perdidos na imensidão do universo.

Fingimos sempre, nunca revelamos nosso ser verdadeiro...
Pode chorar, pode dizer, estou aqui para lhe escutar.
Sou como você: humano, fraco, perdido; mas aceito minha humanidade... e posso aceitar sua dor.

Chore, liberte sua alma!
Divida comigo seu tormento,
Nós dois podemos encontrar uma solução...

Ninguém sai ileso de um contato com o outro,
Existe sempre uma troca, um sentimento...
Pode chorar... pode dizer... como você, sou humano...

No final, você conseguirá enfrentar a si mesmo...
Enfrentará a vida de cabeça erguida,
E não cairá diante dos obstáculos.

A existência é dorida:
Mas também é bela,
É uma...
[poesia!



Anderson C. Costa, 17/08/2008
contatosamonte@yahoo.com.br

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Madrugada maluca

Eram três da manhã, chovia. André acorda assustado, levanta-se e fica parado junto á cama ouvindo o barulho. Era um barulhinho esquisito, incômodo e incessante: Crec...crec...crec. André já estava ficando com medo, nunca fora muito corajoso e, sozinho ali no escuro, o medo aumentava em ondas crescentes. Apesar do medo, resolveu investigar a coisa.
Saiu do quarto e encaminhou-se para cozinha, a casa era pequena, a cozinha ficava bem próxima de seu quarto. André parou no limiar da porta, ouviu aguçadamente e percebeu que o ruído vinha do armário perto da pia. Foi pé-ante-pé até junto do armário, parou e viu que a porta estava entreaberta, pensou um pouco e levou a mão ao canto inferior da pequena porta.
André puxo levemente a porta, de forma que pudesse verificar o que fazia tão chato barulho. Quando abriu uma pequena fresta, um rato enorme pulou para fora do armário, André afastou-se aos berros, com coração pulando doidamente dentro do peito arfante. Acabou chocando-se contra a mesa da cozinha, estatelando-se no chão, o que resultou em um enorme e arrogante galo na testa, logo acima da sobrancelha esquerda.
No fim, André, com um galo na testa, que doía como o diabo, não conseguiu mais dormir, terminou a noite assistindo TV. O rato que, assustado, correra doidamente pelo quintal da casa de André, acabou indo parar no quintal da casa de Dona Cacilda. O gato Godofredo acabou jantando o pobre coitado. O gato Godofredo, por sua vez, após comer o rato, saiu para a rua aos berros, tamanha era sua alegria por ter saboreado tão delicioso petisco. Para seu azar, o cachorro do seu Severino estava passando pela rua, entediado até a alma por não ter conseguido pegar nenhuma cadelinha no praça do coreto. Quando viu o gato Godofredo fazendo tamanha algazarra, alegrou-se, correu atrás dele e deu-lhe uma coça dos diabos.
Mas a história não terminou aí. Após espancar o gato Godofredo, o cachorro do seu Severino — que se chamava Chuc — vadeou a rua, em direção a sua casa. Para seu desespero, a carrocinha municipal resolvera fazer serão, na esperança de pegar em flagrante alguns cachorros rebeldes que andavam fazendo uma barulhada dos diabos na Avenida das Palmeiras, atrapalhando o sono dos pobres cidadãos.
O pobre Chuc acabou sendo pego — a despeito de seus berros suplicantes —, indo parar no canil municipal, onde os cachorros comiam uns aos outros — no sentido literal da coisa, ninguém na prefeitura pensava que cachorro era bicho que, como as pessoas, necessitava de comida.
Mas como toda história de humor, alguém deve ficar feliz, e nessa não vai ser diferente.
O seu Severino ficou rindo a toa, pois, estava até as tampas com seu maldito cachorro, o miserável só fazia comer e dormir. Ele também detestava o gato Godofredo, que todo dia urinava em sua horta, deixando um cheiro dos diabos. Detestava ratos também, os infelizes estavam roendo todo o milho, que não poderia ser comido por mais ninguém que não pelas galinhas Rosalda e Tinoca. Por fim, detestava o vizinho André, que só sabia ouvir Funk e cantar a música do “Tropa de Elite”.

Anderson C. Costa
contatosamonte@yahoo.com.br

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Espectros

Segue pela vida o menino abandonado.
Menino sem nome, menino sem casa, menino sem esperança, menino sem amor, menino sem nada.
Segue pela rua o menino triste: menino sem comida, menino sem pais, menino sem nada.
Existência redundante, existência invisível. Esboço de vida.
Segue o menino, mas ninguém o segue.
Ele não sabe o que é vida, ele apenas sobrevive.
Mesmo assim: segue pela rua o menino sem nada.
Semáforo.
O menino faz malabarismo, precisa ganhar um trocado; apesar de não ter nada, ele ainda tem estômago, que precisa ser alimentado.
Ninguém o vê, mas todos fecham as janelas. Triste invisibilidade paradoxal.
No outro dia, segue pela rua o menino sem nada: apenas com fome.
Semáforo.
Ele tenta pedir, mas é invisível, mesmo assim todos fecham as janelas. As pessoas pressentem os fantasmas.
Segue pela rua o menino cambaleante.
Ele encontra outras existências invisíveis, reúnem-se debaixo do viaduto.
Cheiram cola, enganam o estômago, enganam a dor e enganam a si mesmos.
O menino adormece. No outro dia, vai ao semáforo, tenta mais uma vez. Mas continua invisível.
À tardinha, outro menino sem nome lhe da uma coisa nova; coisa pesada, coisa para espantar toda a realidade.
O menino sente muita fome, precisa de algo para despistar tão incômoda necessidade.
Usa demais, seu organismo nunca vira tanta potência.
Chega a noite, ele cai no cimento, e por ali fica...
Os cidadãos passam apressados, ninguém vê o corpo defunto junto à calçada, mas todos evitam passar perto dele. O dia está alto, chegam alguns homens, removem o defunto.
Numa cova fria e rasa jaz o corpo do menino: corpo magro, corpo pouco, corpo podre, corpo sem nome. Em alguns dias será removido.
Existências efêmeras, corpos invisíveis, fruto de uma sociedade doente, sociedade falida.
Existências sem nome, existências sem carinho, existências sem humanidade.
Espectros perdidos entre os arranha-céus, estorvos à beleza urbana. O que fazemos?
Não enxergamos fantasmas, vivemos mergulhados em nossas próprias mazelas.
O outro não é enxergado por nós, mas nós o culpamos por nossos problemas. Estranho paradoxo.
Somos assim:
A Humanidade contemporânea, a humanidade sem vida, a humanidade cada vez menos humana.


Anderson C. Costa, 30/07/2008.
contatosamonte@yahoo.com.br